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Aula de Pilates: uma discussão acerca do poder

Começar do começo soa redundante, certo? Mas é bem por esse lado que enveredarei.

Vou ser redundante com relação a um assunto que precisa de redundância! Que precisa de um olhar respeitoso e cuidadoso e que precisa de um olhar acima de tudo, justo. Escrever sobre o que é justo ou não é muito relativo, uma vez que cada um entende o termo justiça do aspecto que bem lhe couber. De qualquer forma, vou escrever sobre justiça através dos meus olhos, do meu entendimento e da minha percepção como instrutora de Pilates.

No título usei o “Poder” no sentido verbal da palavra: Você pode, você não pode, eu posso, eles podem.

Existe uma discussão muito grande que vai além do que consideramos justo, envolvendo questões políticas e interesses de mercado que é:

Quem realmente pode dar aula de Pilates?

aula de pilates (2)Vou então, mudar a minha pergunta para algo mais simples (ou não):

O que é o Pilates?

Muitos responderão: “Pilates é um método de condicionamento físico que tonifica, alonga, etc”. Frase pronta que encontramos em qualquer site que venda o método. Não considero errada, considero, outrossim, incompleta.

Foram anos de construção de uma técnica, um método que viabiliza a melhora da saúde física e mental de muitos clientes/pacientes/alunos, justamente por ser algo que vai muito além de um condicionamento físico.

aula de pilates (11)Minha resposta seria, caso me perguntem o que é o Pilates, mais ou menos assim:

“Pilates é uma técnica de construção de movimento, um estudo corporal somático que se utiliza de aparelhos únicos e específicos criados por Joseph Pilates e que através de seis princípios chave, busca conectar o corpo e a mente para uma realização plena. Respiração, Fluidez, Concentração, Controle, Centro de Força e Precisão são os seis princípios da Contrologia, que quando atingidos, chega-se a uma execução perfeita e isso significa que a busca corpo/mente foi culminada”.

Considero uma definição mais completa do que o Método significa para mim, para o meu corpo, para o que desejo passar aos meus alunos e o que eu gostaria que eles compreendessem da técnica. Jamais entrarei numa sala a fim de sacar uma série de exercícios do bolso e segui-los incessantemente sem que tenha um objetivo final a ser conquistado, que somente execução física. A meu ver, Pilates não é isso.

Voltarei ao ponto de partida:

“Quem realmente pode dar aula de Pilates?”

aula de pilates (7)PAUSA

Vem comigo dar uma voltinha lá onde tudo começou…

Joseph era educador físico? Bailarino? Fisioterapeuta? Terapeuta ocupacional? Nutricionista?

Foram quatro anos estudando? A faculdade dele era online ou presencial?

Não para todas as perguntas!

Ele era um autônomo, conhecedor e estudioso do corpo humano. E a criação dele veio de uma vida de observações e de um desenvolvimento adquirido por todas as atividades que ele realizou enquanto pôde. Fatores externos e condições da época também influenciaram a sua criação, não tem como fugir deles, mas sabemos, e sabemos bem que ele não tinha nenhum título Universitário, tal qual nos é exigido hoje, para ministrarmos uma aula de Pilates.

Então, por que no Brasil, existe um movimento que diz que somente fisioterapeutas e educadores físicos podem dar aula de Pilates?  Sendo que o inventor do método não o era?

Elders

Ainda no túnel do tempo vamos analisar quem recebeu o conhecimento diretamente de Joseph Pilates e quais eram suas profissões:

aula-de-pilatesCarola Trier – Dançarina, acrobata e contorcionista

Ron Fletcher – Bailarino da Marta Graham Company

Evy Gentry – Dançarina moderna que ajudou a fundar o The Dance Notation Bureau em Nova York

Lolita San Miguel – Primeira bailarina do balé Concierto de Porto Rico

Romana Kryzanowska – Bailarina que estudou no George Balanchine’s School of American Ballet.

Bruce King – Bailarino membro da Merce Cunningham Company, Alwyn Nikolais Company, e da sua própria cia Bruce King Dance Company

Mary Bowen – Analista Jungiana

Kathy Grant – Bailarina e assistente de coreografia da Dance Theatre of Harlem

Bob Seed – Jogador de hóckey

Robert Fitzgerald –Bailarino

Jay Grimes – Bailarino – Ballet and Broadway

aula de pilates (6)De todos os considerados Elders a maioria eram bailarinos/dançarinos que buscaram o Pilates por alguma lesão e acabaram se encantando pelo Método, ou simplesmente pelo encantamento.

O que se aprende em uma faculdade de educação física e que não se aprende em uma faculdade de dança, ou vice-versa, que seriam possíveis disciplinas chaves para poder se aplicar o Método Pilates?

Na fisioterapia sabemos que o estudo das Patologias em si vai muito além do que em qualquer outro curso. Mas a partir do momento que eu estou ministrando PILATES, e quem está buscando PILATES em um Studio deve saber que, se um profissional fizer um bom curso de formação, tanto teórico quanto prático, ele estará apto a ministrar a técnica, e é isso que o cliente, paciente, aluno deve ter em mente quando se desloca até um Studio de: PILATES.

A discussão continua sendo: quem pode dar aula de Pilates?

aula de pilates (12)Vou elencar aqui, algumas disciplinas universitárias que, a meu ver, poderiam ser consideradas “obrigatórias” para poder ministrar a técnica, entender o corpo humano e assim dar aula de Pilates:

– Anatomia humana

– Cinesiologia

Biomecânica

-Fisiologia do exercício e do movimento

São disciplinas correlatas com cursos de educação física, dança e fisioterapia, sendo assim, por que uns podem e outros estão sendo proibidos?

Esse é um questionamento que devemos nos fazer, mesmo porque muitas pessoas estão totalmente alheias a esses acontecimentos.

Existe obra prima, mercado de trabalho, aluno, cliente, paciente ou como queira chamar para todo mundo nesse mundão, desde que estejamos fazendo o nosso trabalho com afinco, auxiliando nossos alunos a terem uma vida mais saudável, menos rígida e mais maleável, não tem motivo real pelo qual proibir quaisquer relações. Friso: desde que se tenha um curso de formação em Pilates de qualidade para agregar ao que já se tem de conhecimento adquirido.

Concluindo..

aula de pilates (8)A vida não é feita de uma só escolha, então é difícil demais julgarmos um ser humano pela capa. Existem anos de conhecimento, estudo e dedicação. Talvez esse texto nem chegue onde eu gostaria que chegasse, mas se tocar você de alguma forma eu acredito que passará para frente, e como uma teia poderemos construir um pensamento menos egoísta, valorizando todas as características que um bailarino, um educador físico e um fisioterapeuta podem oferecer dentro de suas especificidades aliadas à técnica Pilates.

Compartilhe!

Até breve.

Written by Adriana Coldebella

Adriana Coldebella

Instrutora certificada internacionalmente por Lolita San Miguel em seu Programa de Mentoria nos EUA e apta a ministrar o Lolita´s Legacy.
Bacharel e Licenciada em Dança pela Unicamp e pós graduada em Massagem e Técnicas corporais, ministra workshops e aulas especiais e é modelo fotográfica de exercícios de Pilates.

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  1. Já li muito sobre o tema, e venho dar-lhe parabéns pela lucidez, tenho algumas críticas construtivas mas essas não vêm ao caso. Pelo fato de ser bailarina, talvez sejas questionada todos os dias por sua formação. Infelizmente além desses questionamentos existem profissionais que fazem questão de manter essa “briga” desnecessária, criam inimizades, e através da retórica infundada querem tomar pra si uma coisa que não lhes pertence exclusivamente, precisam realmente ler e compreender seu texto pra relembrar a história do método. No Brasil o Pilates vem se perdendo, com a “criação” de novos meios dentro do Pilates. E aí me questiono, será que era isso que Joseph queria? Onde está a originalidade do mesmo? Enfim. Parabéns pelo texto e sucesso.

  2. Vejo muito mais briga mercadológica (e monetária) que realmente preocupação com a defesa da execução do método. Uma passada rápida no livro que Joe escreveu Retornando a Vida Através da Contrologia, vê claramente que o desejo dele era universalização da prática e desfrutar dos benefícios. Texto primoroso, obrigado por sua contribuição.

  3. Obrigada por “re(publicar)”…
    Acabei de reler e aquietar o coração…
    Esses são nossos Clarões de Lucidez em meio ao furacão da luta… Texto objetivo, coerente e precioso!
    Beijos

  4. Texto muito bom, alívio para meu coração. Sou Educador Físico e em Julho fiz um curso de Pilates completo onde tive contato com a técnica e quero poder trabalhar no método, pois amei e gostei muito. Mas infelizmente estou tendo dificuldades de fazer o estágio ao qual preciso para cncluir a terceira etapa do curso, pois, os estúdios onde fui não aceitam educadores físicos, pois alegaram que meu aprendizado é “diferente” dos fisioterapeutas e que eles não tianham ligação com o CREF. Não estou achando um estudio onde tem um educador físico para amenizar a situação. Noto que há uma disputa de poder/posse entre os conselhos/profissionais, fico muito triste. Parabéns pelo texto lúcido e explicativo.

    • Obrigada Anderson pelas palavras…ao mesmo tempo que fico feliz de poder esclarecer um pouco mais a situação para os leitores, fico muito triste, muito muito…porque algo tão benéfico para todos, um método que realmente modifica, reconstrói, realinha, deveria ser pensado e utilizado unica e exclusivamente a fim de ajudar o próximo e não nos causar dor de cabeça em querer trabalhar e não poder…existem muitos Studios que aceitam educadores físicos sim. Talvez algum espaço que não seja uma clínica faça mais sentido para você… qualquer dúvida estou à disposição.
      Obrigada!

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