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Benefícios do Pilates no tratamento do AVC

Benefícios do Pilates no tratamento do AVC
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Você conhece todos os benefícios do Pilates?

Sabemos que ele ajuda desde a melhora no equilíbrio e percepção até o tratamento de diversas patologias. Sendo assim nesse texto vamos apresentar a história de Seu Nelson, meu aluno e paciente, que há 16 anos sofreu um acidente vascular cerebral hemorrágico (AVCh). Vou descrever desde sua avaliação, até os exercícios por ele praticado para melhora no seu quadro.

 Quem é Seu Nelson?

BENEFICIOS DO PILATES (6)

 Ele é um aluno e paciente, que tem sequela motora de uma patologia neurológica.  Hoje ele tem 70 anos e há 16 anos atrás teve um acidente vascular cerebral hemorrágico (AVCh). Vale lembrar que os pacientes acometidos por um AVCh, não apresentam um prognóstico muito favorável. Ainda mais em seu caso, onde ele ficou 25 dias em coma induzido e um total de 90 dias internado.

Por esse fato ter ocorrido há muito tempo, o paciente não dispõe de exames para que seu caso seja estudado mais a fundo. Mas o que pode ser dito, segundo ele, é que o fator causal foi o aumento da pressão arterial associado à maus hábitos de vida.

Hoje em dia o que o incomoda é a dificuldade em manter a memória recente e em utilizar a mão esquerda para as atividades de vida diária (AVDs).

Os medicamentos utilizados por agora são o carvedilol (para hipertensão arterial, sinvastatina e para diminuir colesterol), o AS (ácido acetilsalicílico) e o Aradois (para hipertensão).

Explicando o AVC

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Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 1992, o AVC é uma síndrome clínica caracterizada por sintomas/sinais neurológicos focais e de rápida evolução, com duração de mais de 24 horas ou que levem à morte sem outra causa aparente que não a vascular.

Podemos dizer que esta definição já é um tanto antiga. Uma vez que exames de imagens, tão fundamentais para auxiliar no diagnóstico correto, não eram realizados na época em que a definição foi elaborada.

O AVC pode acontecer proveniente de dois processos: a isquemia ou a hemorragia.

A isquemia é a causa mais comum. É quando ocorre uma obstrução em uma das artérias cerebrais ou em suas ramificações. Ela pode tanto ser ocasionada por placas ateroscleróticas que bloqueiam o fluxo sanguíneo causando a isquemia de determinada região ou por êmbolos secundários provenientes do coração ou de outros locais, e também causando esse processo.

Menos comum, porém com sequelas geralmente muito mais graves e incapacitantes do que as ocasionadas por um acidente vascular cerebral isquêmico (AVCi), é o acidente vascular cerebral causado por uma hemorragia.

A hipertensão, o aneurisma e malformação arteriovenosa podem causar este tipo de AVC. A hemorragia hipertensiva é dita uma das causas mais comuns de coma. Pode ter sido este fator que desencadeou o processo comatoso no Seu Nelson. Independente da maneira como esse processo ocorra, as insuficiências focais provenientes dele dependerão do tamanho e da localização da lesão, além da quantidade de fluxo sanguíneo colateral.

Pelo que o paciente relata como incômodo e sequela motora, podemos ter uma ideia de onde pode ter acontecido o processo hemorrágico, ou das áreas mais afetadas por ele, uma vez que na época do acidente o paciente ficou comatoso por 25 dias e ao acordar não apresentava movimentação ativa em nenhuma parte do corpo.

Nossas memórias podem ser armazenadas de duas maneiras. As memórias de curto prazo são armazenadas no lobo pré-frontal (Fig.1). Já as de longo prazo vão para o hipocampo, e lá elas são solidificadas.

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Figura 1

Pensando no caso específico do nosso paciente, o que ele já tinha de memória a longo prazo, permanece lá. Ele tem recordações, porém, as memórias a curto prazo são difíceis de serem armazenadas, e muito menos serem convertidas em memórias de longo prazo e irem ao hipocampo.

Sugere-se com isso, que a área pré-frontal foi afetada pelo AVC, e não só por este motivo, o paciente apresenta déficit de atenção, com dificuldade de se concentrar e fixar de forma voluntária esta atenção e, a provável área envolvida nesse controle, também é a área pré-frontal.

Esta área é a área anterior não-motora do lobo frontal. Esta debilidade instalada pode dificultar qualquer tipo de terapia que o paciente venha a receber, esta dificuldade de memória é tanto de sensações, situações quanto de movimentos, ativação motora.

Além disso, outra área que pode ter sido afetada é o córtex de associação motora, na área pré-motora, responsável pela coordenação do movimento complexo ou ainda o córtex motor primário, no giro pré-central, onde ocorre a iniciação do comportamento motor.

Dito tudo isso, não entraremos nos pormenores de onde especificamente ocorreu a lesão, até porque foi há 16 anos. Mas sim nos ater ao que podemos fazer e como, utilizando a base dos exercícios de Pilates, diante de uma lesão tão antiga.

Beneficios do Pilates para o tratamento

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Primeiro passo: A avaliação

A avaliação postural deve ser realizada na vista anterior, posterior e laterais. (Fig.1, 2, 3).

Não se pode esquecer que a avaliação postural deve ser feita sem camisa para melhor visualização.

Um protocolo específico que pode ser utilizado, por abranger aspectos gerais e ser de fácil aplicabilidade é o protocolo de Fugl-Meyer (EFM). É um protocolo de avaliação sensório-motora utilizado na recuperação pós-AVC (Fig 1).

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Nele são avaliados 6 aspectos: a amplitude de movimento, sensibilidade, dor, função motora da extremidade superior e inferior, e coordenação e velocidade, totalizando 226 pontos.

Quanto maior a pontuação, menor o grau de comprometimento sensório-motor do nosso paciente.

No nosso caso, Seu Nelson obteve uma pontuação de 156 pontos, com maiores déficits nos quesitos: função motora de membro superior (22 pontos), coordenação/velocidade MS (3 pontos) e equilíbrio (10 pontos).

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Fonte: Retirada da revista brasileira de fisioterapia.
BENEFICIOS DO PILATES (3)
Fonte: Retirada da revista brasileira de fisioterapia.

 Segundo passo: Traçando os objetivos

Após a realização da avaliação, independente de qual seja feita, podemos traçar os objetivos a serem alcançados para posteriormente traçarmos uma conduta a ser adotada.

Objetivos do nosso paciente:

  1. Minimizar os efeitos das alterações de tônus muscular;
  2. Manutenção da amplitude de movimento (ADM) em articulações preservadas e ganho de ADM nas articulações necessitadas;
  3. Prevenção deformidades;
  4. Melhora da consciência corporal
  5. Melhora alinhamento postural
  6. Facilitação nas trocas posturais,
  7. Melhora equilíbrio estático e dinâmico em pé;
  8. Melhorar a função nas AVDs.

Terceiro passo: Pilates como forma de intervenção

O Pilates trabalha o corpo todo, treinando áreas corporais de maneira isolada ou em conjunto por meio da aplicação dos princípios de movimento e estabilidade, buscando assim um equilíbrio muscular.

Tal equilíbrio é estabelecido pela relação entre o tônus ou a força e o comprimento dos músculos em torno de uma articulação. Esses músculos podem ser estabilizadores em uma articulação e outros podem ser responsáveis pelo movimento em outras articulações.

Exercícios propostos (utilizando a bola como recurso):

1. Mobilização ativa de quadril na bola

Ex.1.3Ex.1.1Ex.1.2

2. Ponte com a bola encostada na parede

Ex.2  Ex.2.1Ex.2.2

3. Ponte unilateral com a bola encostada na parede

Ex.3

4. Flexão anterior de tronco com os pés apoiados na bola

Ex.4

5. Flexão anterior de tronco com auxílio do fitness circle apoiando a cabeça

Ex.5.1

6. Prancha lateral com apoio do tronco na bola, um MI apoiado na parede e outro MI fletido e apoiado no chão.

Ex.6

7. Quatro apoios com a bola em região abdominal

Ex.7

8. Extensão de quadril e joelho partindo da posição de quarto apoios

Ex.8

9. Flexão ombro e extensão de cotovelo partindo da posição de quatro apoios

Ex.9

10. Extensão de coluna com a bola na região abdominal e pélvica e pés apoiados na parede

Ex.10

11. Elevação lateral de MI, em pé, com a bola apoiada na parede

Ex.11

12. Agachamento com a bola apoiada na parede

Ex.12

A bola foi só um recurso, existem inúmeros outros (como os próprios aparelhos) que podemos utilizar dentro do método Pilates para melhorar o atendimento e aula desses pacientes e alunos com sequelas de patologias neurológicas. E não só isso, existem também outras variáveis que podemos analisar para assim facilitar ainda mais o cotidiano dessas pessoas.

 

Concluindo

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Para concluir, deixo uma dica de como tratar pacientes com essa patologia, mas também fica como inspiração para os tratamentos e aulas, para você poder aplicar com seus alunos.

Não podemos nunca esquecer dos princípios do método. Mesmo que sejam difíceis de serem atingidos por esses alunos em função das alterações no sistema nervoso central, a concentração, a centralização, a fluidez, a respiração, a precisão e o controle devem ser sempre lembrados, para que os benefícios provenientes dele sejam alcançados.

É sempre importante buscar junto com nossos alunos, alcançar os objetivos propostos para então eles sentirem os benefícios do Pilates para eles.

 

Written by Karla Seleme

Karla Seleme

Karla Vergaças Seleme é fisioterapeuta, graduada pela PUC-PR. Formação completa em pilates pela Espaço Vida Pilates e MAT e IR pela Pilates Studiofit ( STOTT Pilates). Especialista em Fisioterapia Neurofuncional, pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo. Possui formação pelo Conceito BoBath Adulto; Balance; iniciação em Kabat, treinamento suspenso, treinamento funcional. Professora de curdo de formação em pilates pela Espaço Vida Pilates

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