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Definições de Flexibilidade e Alongamento aplicados à Atividade Física

Definições de Flexibilidade e Alongamento aplicados à Atividade Física
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A flexibilidade muscular é um fator importante tanto para a realização de atividades funcionais quanto para a obtenção de uma boa performance atlética.

Ela pode ser definida pela capacidade que o músculo tem de se alongar, permitindo que uma ou duas articulações em série aumentem sua amplitude de movimento1, 8, 21.

De uma forma geral, é bem aceito que o aumento da flexibilidade de uma unidade músculo-tendínea promove uma melhora da performance, além de diminuir os índices de lesões na prática desportiva, contudo achados contraditórios são observados na literatura 22, 23.

As alterações de flexibilidade de uma unidade músculo-tendínea estão relacionadas a diversos fatores. Dentre eles é importante ressaltar dois grupos: fatores biomecânicos e fatores neurofisiológicos.

Fatores Biomecânicos

O músculo é composto por uma unidade contrátil e não contrátil. Esta última trata-se de uma estrutura complexa com unidades progressivamente menores que em parte determinam a flexibilidade de uma pessoa, um indivíduo, assim como sua resposta ao alongamento 15.

O tecido conjuntivo (unidade não contrátil), que constitui até 30% da massa muscular 1, é um fator determinante do grau de flexibilidade e da amplitude de movimento de um indivíduo.

O colágeno, presente no tecido conjuntivo, é uma proteína abundante nos tecidos vivos. Ele tem como propriedades físicas grande força de tração e relativa inextensibilidade. O colágeno é dividido em classes e a forma mais comumente encontrada é o colágeno tipo 1, o qual pode ser encontrado na pele, ossos, ligamentos e tendões.

Portanto, esta variedade de colágeno tem um importante papel no ganho de flexibilidade 22.

Além dos tendões, o músculo possui também uma porção central chamada de ventre muscular, onde estão as unidades contráteis. O ventre é subdividido em fascículos, que são conjuntos de fibras musculares.

Cada fibra muscular possui miofibrilas compostas de sarcômeros em série, que são as unidades funcionais de um músculo. Estes são compostos de miofilamentos: a actina, a miosina e a titina.

O ventre muscular, os fascículos e cada uma das fibras musculares são envoltas por membranas de tecido conjuntivo:

  • Endomísio
  • Perimísio
  • Endomísio
  • Sarcolema

Sendo que as fibras são envolvidas pelo endomísio, cada fascículos pelo perimísio e o ventre muscular pelo epimísio.

Essas membranas têm como função alinhar adequadamente das fibras musculares, transmitir de maneira segura as forças impostas ativamente ou passivamente sobre o músculo e fornecer superfícies lubrificadas para que o músculo mude sua forma1.

A titina, citada acima, que é um filamento conectivo presente nos sarcômeros, é um fator importante ligado ao aumento da flexibilidade muscular.

Wang et al. (1991) realizaram uma pesquisa na qual descobriu-se que o comprimento e o tamanho desse filamento são características importantes para determinar quando os sarcômeros irão desenvolver tensão de repouso sob alongamento e onde o sarcômero irá ceder sob estresse 24.

O colágeno presente no elemento elástico do músculo possui dois tipos de comportamento quando submetido a uma força de tração.

Um deles é o comportamento elástico do músculo, que através do tecido elástico presente na fibra muscular faz com que o tecido retorne ao comprimento original quando uma força de tração é removida.

Outro tipo de comportamento é o plástico, o qual permite que o músculo tenha a capacidade de se adaptar de acordo com o tipo de sobrecarga que lhe é imposta além de sua amplitude elástica, havendo então mudanças estruturais no tecido, ou seja, o tecido não volta ao comprimento original quando a força é retirada.

O músculo também apresenta uma combinação de propriedades, a viscoelasticidade, que permite que ele tenha um comportamento elástico e viscoso simultaneamente.

Diferentemente da elasticidade, a viscoelasticidade é tempo-dependente, portanto ela age na flexibilidade de forma que a amplitude de deformação do músculo seja proporcional tanto à força aplicada (componente elástico) quanto ao tempo de aplicação da mesma (componente viscoso) 22.

Por último, quando um músculo em repouso é alongado e mantido em um comprimento constante durante certo tempo, há uma perda de tensão, chamado de Relaxamento ao Estresse, que se deve à sua viscoelasticidade 6, 7, 10, 12, 14, 15, 16, 17, 19, 22.

Portanto, dentre os fatores biomecânicos, é importante conhecer o papel dessas propriedades na determinação da amplitude de extensibilidade da unidade músculo-tendínea, observando sempre que a quantidade de danos ao tecido durante o alongamento será determinada por fatores como grau de força, a velocidade com que a força é aplicada e a extensão do tempo 22, 23, 25.

Fatores Neurofisiológicos

Dentre os fatores neurofisiológicos que influenciam a flexibilidade, podemos identificar três mecanismos básicos:

  1. Inibição Autogênica
  2. Inibição Recíproca
  3. Reflexo Monossináptico de Estiramento9.

A inibição autogênica está associada ao Órgão Tendinoso de Golgi (OTG). O OTG fica localizado nas unidades tendíneas e têm a capacidade de perceber alteração de tensão no tendão.

Quando há um aumento da tensão no tendão, o OTG emite estímulos para desencadear um relaxamento muscular reflexo, sendo esse um mecanismo protetor 1, 6, 9, 10.

A inibição recíproca é um estímulo facilitatório para que ocorram os devidos movimentos articulares, ou seja, quando um grupo muscular (agonista) recebe impulsos excitatórios para a contração muscular, os motoneurônios antagonistas recebem estímulos inibitórios para facilitar o movimento.

Por fim, o reflexo do estiramento é um reflexo desencadeado pelos fusos musculares.

Essas estruturas têm a capacidade de detectar a mudança de comprimento muscular bem como sua velocidade. Quando alongados rapidamente, os fusos emitem estímulos via coluna medular para que o músculo alongado realize uma contração reflexa protetora 6, 9.

Tipos de Alongamento

Exercícios de alongamento são bastante difundidos como parte de um programa de reabilitação física e também são utilizados em diversas modalidades esportivas. Dentre as várias técnicas de alongamentos existentes, as mais utilizadas são:

  1. Alongamentos Balísticos
  2. Alongamentos Estáticos
  3. Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva (FNP)

O alongamento balístico é caracterizado por movimentos cíclicos onde o músculo é rapidamente alongado e imediatamente retorna a sua posição anterior 17.

A eficácia desta técnica é questionada, pois um rápido alongamento muscular sensibiliza o fuso e conseqüentemente gera uma contração protetora em resposta. Desse modo, acontece um maior risco de lesão da junção músculo-tendínea, especialmente se usado com fins de reabilitação 21.

Os alongamentos estáticos são definidos pelo estiramento do grupo muscular, associado a uma grande amplitude de movimento e sustentação da posição de alongamento entre 15 a 60 segundos 5, 9, 15, 17.

Porém, Magnunsson et al. (1996) demonstraram que, apesar da sustentação da posição de alongamento com conseqüente aumento da flexibilidade, após uma hora, o declínio observado nas variáveis biomecânicas com melhora da amplitude de movimento retornou aos seus valores de base.

Concluindo…

Por último, a Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva é uma técnica que consiste em uma contração isométrica do músculo a ser alongado, a fim de ativar os OTG’s, seguida de uma contração concêntrica dos antagonistas do músculo a ser alongado, ativando a inibição recíproca e inibindo o tônus do músculo a ser alongado.

A hipótese que sustenta essa técnica descreve que acontece uma inibição reflexa do músculo agonista enquanto o antagonista realiza a contração.

Entretanto, autores questionam essa teoria, pois é observado um aumento da atividade elétrica do músculo após a aplicação da técnica 13. Tais autores sugerem que o ganho observado se deva mais a estímulos mecânicos do que a fatores de inibição neurofisiológica.

Outra possível explicação para uma maior eficácia da FNP é a interferência do alongamento na percepção da dor do indivíduo, sendo esse um fator importante pelo aumento da amplitude de movimento 9, 15.

 

Referências Bibliográficas
  1. Alter, Michael J. Ciência da Flexibilidade, trad. Maria da Graça Figueiró da Silva. 1999- 2ª ed.  Artes   Médicas Sul, Porto Alegre.
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  3. Bartlett MJ, Warren PJ. Effect of Warming Up on Knee Proprioception Before Sporting Activity. British Journal of Sports Medicine. 2002;36:132-134.
  4. Burke DG, Holt LE, Rasmussen R, MacKinnon NC, Vossen JF, Pelham TW. Effects of Hot or Cold Water Immersion and Modified Proprioceptive Neuromuscular Facilitation Flexibility Exercise on Hamstring Length. Journal of Atletic Training. 2001;36(1):16-19.
  5. Chan SP, Hong Y, Robinson PD. Flexibility and passive resistance of the hamstringsof young adults using two different static stretching protocols. Scand J Med Sci Sports. 2001;11:81-86.
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  8. Fonseca ST, Ocarino JM, e Silva PLP. Ajuste da rigidez muscular via sistema fuso-muscular-gama: implicações para o controle da estabilidade articular. Revista Brasileira de Fisioterapia. 2004;8(3):187-195.
  9.  Gajdosik RL. Passive extensibility of skeletal muscle: review of the literature  with clinical implications. Clinical Biomechanics. 2001:87-101
  10.  Halbertsma JPK, Ludwig NH Göeken NH. Stretching exercises: Effect on passive extensibility and stiffness in short hamstrings of healthy subjects. Arch Phys Med Rehabil. 1994;758:976-981
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Written by Henrique Raphael

Henrique Raphael

Fisioterapeuta, com Pós-Graduação na Área de Reabilitação em Traumatologia, Ortopedia e Disfunções relacionadas à Atividades Desportivas. Atualmente atua com Reeducação Postural utilizando técnicas do Pilates e Exercícios Funcionais. Experiência também em acompanhamento da Performance Física e Qualidade Cinético-Funcional de Praticantes de Atividades Físicas em Academias.

- Formação em Pilates Clínico Internacional - APPI - (The Australian Physiotherapy and Pilates Institute)
- Sócio-Proprietário da Ressalve Postura & Pilates | @ressalvepostura
- Proprietário do Stance Studio Pilates | @stancepilates
- Criador do E-book “Como Abrir um Studio de Pilates do Zero”

Mais informações: https://www.linkedin.com/in/henriqueraphaelleite/

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