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Estabilidade: Músculos Multífidos e Transverso do Abdômen – Análise Biomecânica

Nós que trabalhamos com Pilates, sabemos da importância na ênfase dos trabalhos para ativação das musculaturas profundas que o método exige. Muitas vezes realizamos esse trabalho, porém, não sabemos ou não nos atentamos nas questões biomecânicas relacionadas a essas musculaturas.

O nosso objetivo primário no método Pilates é melhorar a estabilidade da região lombar e pélvica, e assim, favorecer a interação muscular para controle e proteção dos segmentos da coluna durante os exercícios que realizamos no Método.

A estabilidade é definida como um processo dinâmico que inclui posições estáticas e movimentos controlados.

Isso inclui um alinhamento em posições sustentadas e padrões de movimento que reduzam a tensão nos tecidos adjacentes, e evitem causas de trauma para as articulações ou tecidos moles, além de fornecer ação muscular eficiente. (Barr KP, Griggs M, Cadby T. Lumbar stabilization: core concepts and current literature, part 1. Am J Phys Med Rehabil. 2005)

Estabilidade da Coluna

Análise-Biomecânica---Figura-1
Figura 1

Panjabi (1992), introduziu uma teoria sobre o sistema de estabilização vertebral em que a estabilidade da coluna é provida por três subsistemas: (Figura 2)

  • Subsistema Ativo: Refere-se aos músculos e sua capacidade de gerar força e prover estabilidade;
  • Subsistema Passivo: Compreende estruturas ósseas e articulares, além dos ligamentos; fornecem a maior parte da estabilidade pela limitação passiva no final do movimento;
  • Subsistema Controle: Relacionado ao sistema neural (sistemas nervoso central e periférico). É quem administra os músculos, logo, a eficiência dos mesmos dependem da integridade desse sistema, uma vez que é ele quem percebe a necessidade e busca estabelecer uma forma de supri-la. Esse sistema deve ativar os músculos corretos no tempo certo, para proteger a coluna de lesões e permitir o movimento.
Análise-Biomecânica---Figura-2
Fonte: Fisioterapia para estabilização lombopélvica. Phorte Editora. 2011.

Bergmark propôs o conceito de vários músculos com diferentes papéis na estabilidade dinâmica. Nessa hipótese há dois sistemas atuando na estabilidade do tronco. (Bergmark A. Stability of the lumbar spine: a study in mechanical engineering. Acta Orthop Scand. 1989)

Sistema Global

Consiste de grandes músculos produtores de torque, atuando no tronco e na coluna sem serem diretamente ligados a ela.

São eles:

  1. Reto do Abdômen
  2. Oblíquo Externo
  3. Parte Torácica do Iliocostal Lombar
  4. Longuíssimo Torácico
  5. Porção Torácica
  6. Oblíquo Interno

Tem como características principais:

*Produção de movimento

*Agem sobre a pelve e caixa torácica

*Equilibram as forças externas aplicadas no tronco

Sistema Local

Fornecem estabilidade ao tronco, não sendo capazes de influenciar diretamente a coluna. É formado por músculos ligados diretamente às vértebras e responsáveis pela estabilidade e controle segmentar.

São eles:

  1. Multífido Lombar
  2. Transverso do Abdômen
  3. Longuíssimo Torácico
  4. Porção Torácica
  5. Fibras Posteriores do Oblíquo Interno
  6. Quadrado Lombar
  7. Fibras Médias
  8. Parte Lombar do Iliocostal

Tem como características principais:

* Inserção direta na coluna

* Controle do movimento intersegmentar

* Controle do posicionamento da coluna.

Com relação ao conceito das musculaturas locais e globais, é importante destacar:

  • Foi detectado um aumento da co-contração dos músculos globais em pessoas com lombalgia. (Radebold et al. 2000)
  • Em pacientes com lombalgia, a excessiva ativação de musculaturas globais pode ser indicação de um controle muscular inadequado do tronco. (Radebold et al. 2000)
  • Cholewicki et al. (1997), já havia levantado a teoria de que a disfunção no sistema estabilizador passivo pode ser apontada através de níveis crescentes de co-contração de musculaturas do tronco.
  • Hodges (2003), verificou que em virtude das ações deficientes dos músculos abdominais locais, a atividade dos músculos globais aumenta frequentemente. Também foi verificado que em estudos de dor experimentalmente induzida, a atividade de pelo menos um dos músculos globais aumentou junto com a dor.
Análise-Biomecânica---Figura-3
Figura 3

Em 2013 pesquisadores israelenses apresentaram uma nova versão, uma espécie de aperfeiçoamento do modelo elaborado por Panjabi. Nesse modelo, eles propõem que há dois elementos indivisíveis: estabilidade e mobilidade.

Deve haver um envolvimento concomitante desses elementos para favorecer a qualidade do movimento e eles apresentam 6 subsistemas, são eles:

  1. Estabilidade Ativa
  2. Estabilidade Passiva
  3. Estabilidade Neural
  4. Mobilidade Ativa
  5. Mobilidade Passiva
  6. Mobilidade Neural
Análise-Biomecânica---Figura-4
Figura 4 – Fonte: Expanding Panjabi’s stabiity model to express movement: A theoretical model. J. Hoffman, P. Gabel. 2013.

Os autores defendem que há uma série de intervenções que normalmente integram todos os subsistemas, que eles chamam de métodos “corpo e mente”, em que eles incluem o Pilates.

Porém, novas pesquisas são requeridas para investigar e esclarecer a interferência de diferentes atividades nos movimentos corporais.

Músculo Transverso do Abdômen

Análise-Biomecânica---Figura-5
Figura 5

É o mais profundo dos músculos abdominais, se origina da fáscia tóracolombar, entre a crista ilíaca, na face interna das seis cartilagens costais inferiores, onde se interliga com o diafragma, o terço lateral do ligamento inguinal e os dois terços anteriores do lábio interior da crista ilíaca. (Williams et al. 1989).

Quando o transverso do abdome se contrai bilateralmente, diminui a circunferência da parede abdominal e achata essa parede na região inferior para aumentar a pressão intra-abdominal e a tensão nas fáscias anterior e tóracolombar. (Cresswel et al. 1992, 1993, 1994).

Análise-Biomecânica---Figura-6
Figura 6

Acredita-se então que o transverso do abdômen exerça seus maiores efeitos na estabilidade lombopélvica por meio do aumento da pressão intra-abdominal, na tensão fascial e por intermédio da compressão das articulações sacroilíacas e, em potencial, na sínfise púbica. (Cresswell et al. 1992; Snijders et al. 1995; Hodges, 1999).

Importante também a relação do transverso do abdômen com o diafragma e o assoalho pélvico; a menos que a atividade das estruturas citadas acompanhem a do transverso do abdômen, a contração do mesmo apenas deslocará o conteúdo abdominal, com mínimo efeito na pressão intra-abdominal e na tensão fascial.

Como esse músculo apresenta principalmente fibras musculares com orientação transversal, apresenta uma capacidade limitada para flexionar, estender ou flexionar lateralmente a coluna. (Williams et al. 1999)

O transverso do abdômen, embora tenha se mostrado ativo durante a rotação da coluna, possui um braço de movimento limitado para contribuir com o torque de rotação. (Hemborg, 1983; Cresswell et al. 1993; Urquhart et al. 2002)

Geralmente, segundo Hodges e Richardson (1996, 1998), em pessoas com dor lombar a descoberta mais consistente é o atraso na ativação do transverso do abdômen em movimentos de braço e perna, demonstrando claramente uma falha no mecanismo de antecipação e que estes músculos desempenham um papel importante no fornecimento de estabilidade para a coluna lombar durante tarefas funcionais.

 Músculo Multífido Lombar

Análise-Biomecânica---Figura-7
Figura 7
  • Em estudo realizado por Sihvonen et al. (1991), foi verificado que houve uma atividade menos intensa dos multífidos (Via EMG) durante atividade posterior concêntrica, sugerindo uma menor proteção muscular; o oposto do que seria logicamente exigido.
  • Biedermann et al. (1991): Demonstraram que o multífido era o músculo com maior nível de fadiga em comparação a indivíduos saudáveis.
  • Roy et al. (1989): Realizaram um estudo com atletas de alto rendimento (remadores do sexo masculino); nos indivíduos com lombalgia a disfunção dos multífidos estava presente, mesmo com o rigor exigido nos treinamentos de força.
  • Danneels et al. (2000): Verificou que houve redução da área de secção transversa (AST) do multífido em pacientes com lombalgia. (Figura 8)
  • Kelley et al. (2003): Essa hipotrofia era mais significativa em níveis lombares mais baixos. (Figura 8)
  • Área de secção transversa aumenta a níveis caudais. (Importante devido às maiores incidências de lesões a nível de L4-L5 e L5-S1).
Análise-Biomecânica---Figura-8
Figura 8. – Fonte: Fisioterapia para estabilização lombopélvica. Phorte Editora. 2011.

Wilke et al. observaram que, próximo à L4-L5, o multífido lombar contribui com 2/3 do aumento da rigidez segmentar resultante da contração.

Concluindo…Estabilidade

Um aspecto importante, já abordado de forma brilhante por outros colegas aqui no Blog Pilates, é que a avaliação é de fundamental importância para traçarmos uma conduta específica para nosso paciente.

Dessa forma, quando buscamos encontrar a causa de uma lesão ou desconforto temos uma chance maior de atuarmos na causa do problema e não apenas nos sintomas.

Ainda vale ressaltar que o precisamos ter muito cuidado com alunos iniciantes no Método Pilates.

Vimos que Hodges, em 2003, verificou que que em virtude das ações deficientes dos músculos abdominais locais, a atividade dos músculos globais aumenta frequentemente, ou seja, muitas vezes vamos nos deparar com indivíduos que apresentam musculaturas globais (a lembrar, como exemplos: o reto do abdômen, o oblíquo externo, a parte torácica do iliocostal lombar, longuíssimo torácico porção torácica e oblíquo interno) hiperativadas.

Devemos tomar o devido cuidado para não aumentar essa ativação, uma vez que parece haver uma relação entre o aumento da atividade de pelo menos um dos músculos globais com a dor.

A prudência na fase inicial, pois, em algumas situações como as citadas acima, ao trabalharmos exercícios que enfatizam a musculatura global podemos não estar contribuindo para uma melhora do quadro cinético funcional do indivíduo.

Nessa fase seria interessante, além do trabalho nas musculaturas profundas, buscarmos diminuir a tensão nas musculaturas globais (que também pode ter diversas causas).

Importante lembrar que, a lombalgia é um sintoma de natureza multifatorial, devemos cada vez mais buscar nos aprimorar e aumentar o nosso arsenal terapêutico, formas de avaliação cinético funcional e nosso conhecimento como um todo.

Importante lembrar que, a lombalgia é um sintoma de natureza multifatorial, devemos cada vez mais estar buscando nos aprimorar e aumentar o nosso arsenal terapêutico, formas de avaliação cinético funcional e nosso conhecimento como um todo.

Vale ressaltar que muitas vezes iremos nos deparar com mais de uma possível causa de lombalgia, muitas vezes além do trabalho nas musculaturas estabilizadoras (ou ainda, talvez o problema nem esteja relacionado a elas, como alguns artigos recentes mostram!!!!) teremos que abordar outras questões e formas de tratamento, por isso eu, assim como outros colegas aqui do blog, enfatizamos a importância da avaliação antes de qualquer intervenção terapêutica.

Obrigado e até a próxima!

Written by Roberto de Sousa

Fisioterapeuta formado pela FRASCE/RJ
Especialista em biomecânica pela UFRJ
Fisioterapeuta do Club de Regatas Vasco da Gama (02/2013 - 01/2015)
Professor do Instituto Brasileiro de Fisioterapia (IBRAFISIO)
Formação no conceito Mulligan
Formação em Trilhos anatômicos
Formação em Mobilização Neural
Formação em Pilates (Curso Básico, aplicado à Gestantes, patologias de coluna e hérnia de disco)
Formação em estabilização segmentar cervical e lombar
Formação em Kinesiology Taping

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2 Comentários

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    • Obrigado pelo comentário, Cristina.
      Eu que agradeço a atenção prestada durante as aulas.
      Sucesso pra você!!!

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