Posted in:

Trabalhando o aluno como referência de si mesmo

Trabalhando o aluno como referência de si mesmo
Gostou? Avalie!

Como instrutor do Método Pilates, nunca sabemos com certeza quais serão as condições do seu aluno em sua próxima aula. Na maioria dos casos, é difícil saber como os alunos e alunas chegarão, que energia carregam, o que lhes dói e que problemas levam consigo.

E, em muitas oportunidades, nem sequer os próprios alunos os sabem, simplesmente se sentem tensionados. Essa tensão é comum nessa sociedade onde o excesso de trabalho é a moeda corrente. Não vamos esquecer que em grande medida, nossos alunos são trabalhadores.

Muitos instrutores desenvolvem com o tempo, diferentes padrões de funcionamento para o início de uma aula. É natural que assim seja, e a experiência vai aceitando essas questões.

Movimentos lentos e controlados de braços, pernas, relaxamento de ombros e pescoço, e atenção à respiração são recursos muito utilizados para permitir que o aluno vá se integrando à aula lentamente, e sem esforços impossíveis. Mas os instrutores devem evitar cair na rotina, aula atrás de aula e dia atrás de dia.

É um aspecto muito importante a levar em conta: nenhuma aula é igual a outra. E aquilo que eventualmente pode ser útil para começar uma boa aula, pode não ser de grande ajuda para o seguinte.

E este detalhe nos leva a considerar que um dos erros mais frequentes é começar todas as aulas iguais, posto que os seres humanos não são máquinas que funcionam exatamente igual uma a outra.

O Corpo Humano no Século TecnológicoAluno-1

A biomecânica humana tem tido sua própria evolução desde os primeiros anos do Método até agora.

Os problemas e corpos que caracterizam homens e mulheres de princípios do século 20 não são exatamente os mesmos atualmente. Um exemplo: hoje em dia é muito mais comum ficar sentado 8 horas diárias em atividades sem esforço físico.

O próprio desenvolvimento tecnológico e laboral tem levado a um crescimento inusitado do sedentarismo nas pessoas. Mas não só a biomecânica tem mudado, mudanças psicológicas também vem acompanhando essa história humana: é muito mais difícil que antes, para muitas pessoas, estabelecer para suas vidas uma rotina mínima de exercícios saudáveis.

A consciência geral está dando cada vez mais importância ao exercício, e as pressões do dia a dia ficam para trás. Em consequência, para muitas pessoas, a ideia única de enfrentar um esforço a mais durante o dia, os atormenta no momento que são conscientes da necessidade de o fazer.

E isto gera certa estagnação que reconforta e acalma a necessidade “Deixa pra amanhã”.

Assim, na sociedade moderna está cada vez mais comum notar que as pessoas chegam muito cansadas às aulas, as vezes cheias de problemas e tensões, e sobretudo porque vão depois do trabalho.

Da mesma forma acontece que quando fazer as aulas pela manhã antes de enfrentar as tarefas do dia: se encontram ansiosas, com dificuldades para se concentrar no ‘’aqui e agora’’ pois sabem que ao finalizar, deverão se vestir rapidamente, sair correndo para o carro ou para o ônibus, e enfrentar o dia.

É muito difícil para as pessoas deixar suas vidas pessoais de fora durante a aula de Pilates. E isso – que parece um detalhe – pode determinar claramente o grau de evolução que a pessoa terá no método.

O instrutor tem como premissa fundamental a responsabilidade de ser um guia para a pessoa, um guia que te ajude a tomar o caminho da concentração, para que a pessoa possa estar ‘’aqui e agora’’, e de maneira que se permita a si utilizar seu corpo como recurso de aprendizagem e a melhora de sua saúde.

Não há combinação de exercícios pensado de antemão, por mais justos e agradáveis que estes sejam, que assegurem o avanço da aula. Se o instrutor não é flexível para tomar uns minutos iniciais de reconhecimento do estado geral da pessoa, muitas vezes não nos recorda que pensamos algo na aula que nos parece muito bom, mas que necessariamente devemos trocar e adaptar somente para ver como a pessoa estará nos primeiros minutos.

Este artigo se propõe a enumerar alguns recursos que podem ser de grande utilidade para permitirmos flexibilidade aos instrutores e aos alunos. Para o instrutor enquanto pode realmente se atender às necessidades da pessoa, e para o aluno por quanto o permitirá separar o espaço da aula, do resto do dia e abrir a porta para começar a viagem dentro de si mesmo.

Por fim, uma aula dura aproximadamente uma hora e é tudo sobre o quanto a desfruta.

Primeiro Contato com o AlunoAluno-2

O espaço da aula é sagrado.

O instrutor deve por todos os meios, chegar sempre antes que os alunos e não ao mesmo tempo. Se utiliza música, deve ter uma playlist: as pessoas relaxam imediatamente ao sentir que se preocuparam em preparar um ambiente para elas.

Isto é o mais importante: não dar lugar para situações que passem a impressão de que tudo está sendo feito de última hora. Por sua vez, o instrutor é o único que pode passar a tranquilidade necessária. Também temos problemas como qualquer pessoa e também devemos deixá-los para fora da aula.

A medida que as pessoas chegam, tente abaixar um pouco o tom da voz, olhá-los nos olhos e os conhecer. Convide-os para ir até o MAT e que tentem relaxar sobre ele.

Isto é importante para que o aluno se aproprie da atividade (tendo em vista que 50% do trabalho será seu) e que não se sinta alienado, como algo que depende exclusivamente das qualidades do instrutor.

Respiração + Atenção = ConcentraçãoAluno-3

Antes de entrar no tema da respiração, vamos esclarecer algo: não é a mesma coisa estar concentrado e prestar atenção.

Quando uma pessoa se concentra, normalmente ela vai para dentro de si mesma, e isto pode ser enganoso: volta a seu corpo as tensões instaladas na mente desde antes. Talvez termine se concentrando mais nelas e na dificuldade frente a seus compromissos, ao invés de realmente se concentrar na aula.

Tive a experiência de ver uma pessoa aparentemente muito concentrada e terminar descobrindo que por trás da aparência, em sua mente estavam passando todos os problemas do dia, ou pior ainda, se encontrava concentrada unicamente em realizar corretamente o que havia sido pedido, e isso significa estar se concentrando em algo externo, na tensão nervosa e não no que está se passando por dentro.

É muito mais fácil pedir às pessoas que prestem atenção ao que sucede dentro delas fisicamente, e como conceito é muito mais concreto. A concentração em seguida, virá por si só.

É desejável reservar os 5 ou 10 primeiros minutos à exercícios de respiração, sem movimentos das extremidades. Uma vez que a pessoa coloca toda sua atenção na respiração, ela muda automaticamente seu ritmo. Podemos, por exemplo, pedir que fechem os olhos e tentem imaginar o que veriam pode dentro de si mesmos e inalar e exalar.

Não peça que saibam o que está acontecendo mas sim que imaginem. A imaginação é muito mais libertadora do que o saber! Lentamente, peça que coloquem toda a atenção ao movimento interno de seus músculos intercostais, internos e externos. Peça que imaginem que podem levar o ar até a cabeça e às extremidades, e sentir que estão se limpando das impurezas e esvaziem ao exalar com esforço.

Faça-os recordar sempre, que se os movimentos do corpo são externos e visíveis, também há movimentos internos intermináveis que acontecem apesar de estarmos absolutamente quietos. Peça que se conectem com esta dimensão antes de qualquer outra atenção ao externo.

Isto é necessário não só para preparar o relaxamento muscular necessário, mas também ajuda o aluno a fazer um corte psicológico total com o resto do seu dia. Com a ajuda de sua imaginação, olhando para dentro, poderá estar aqui e agora, atento aos detalhes de si mesmo, se preparando para usar de forma consciente e com entrega, porque começa a reconhecer algo que seguramente não havia prestado atenção ao resto do dia.

E, ao instrutor, tudo isso lhe permite ver quais são as dificuldades com a respiração neste dia e para essa pessoa. Isto lhe da um panorama geral de como ministrar a aula. Deve ter paciência e quando está seguro de que os movimentos internos e a respiração chegarão a um nível aceitável, poderá seguir com o resto da aula.

O aluno, respirando e prestando atenção entrará por si só na concentração.

O que é Extensão e Oposição?Aluno-4

A aula poderá seguir, por exemplo, começando com movimentos externos que vão acompanhando e integrando corretamente com os movimentos internos já realizados.

De costas sobre o MAT, em posição supina, realize movimentos de braços e pernas (alongar as pernas e o pé até que se separem centímetros do solo, levar os braços até atrás, identificar e fortalecer os ângulos básicos até as costas, sobretudo o do crânio e do pescoço, muito úteis para permitir a sensação de extensão).

Comece a ministrar a aula como se os alunos estivessem um pouco mais alongados do que quando chegaram.

Para a noção de oposição devemos pedir aos alunos que, por exemplo, quando fazer um círculo de braços e os levam alongados até atrás, não esqueçam nunca da posição de seus pés.

Os faça entender que quando um grupo de músculos realiza o movimento, todos aqueles músculos que aparentemente não estão se movendo, devem realizar uma tarefa de estabilização.

A isso nós chamamos de oposição: podemos dizer que os músculos que não acompanham o movimento sejam uma carga, ou bem podemos pedi-los que desde sua aparente quietude realizem um trabalho de fixação e estabilização. É necessário colocar ênfase nisso, em cada coisa que se faça, fácil ou difícil.

Faça o Mínimo de Demonstrações PossívelAluno 5

A aula não é um espaço de entretenimento pessoal do instrutor. Um bom instrutor pode ser capaz de realizar toda uma aula sem se mover, mostrando apenas o mínimo. Não deve exigir que superem nenhum limite. São os alunos os únicos que podem pedir isso a si mesmo.

Com a informação já recolhida em pontos anteriores, o instrutor saberá como ir inserindo, por exemplo, exercícios básicos (desde o The Hundred até o Foca ou Seal). Há mil maneiras de preparar alguém para esses exercícios, que mesmo sendo de nível inicial, não são nada fáceis, especialmente o The Hundred.

E destas mil maneiras devemos escolher uma, por isso a necessidade da informação inicial do estado geral, e sobre toda a parte respiratória da pessoa (muito mais se temos que enfrentar algum problema físico real). O instrutor deverá mostrar os exercícios com facilidades e em nível que acredite que se adapta a este dia e a esta pessoa.

Nunca mostre o exercício como deve ser 100% quando sabe que as pessoas não alcançaram sequer 30% por enquanto. Isso o livra, assim como o aluno, da sensação de frustração, de sentir que não se está realizando corretamente.

Metas curtas dão melhores resultados.

Por outra parte, o ouvido e a visão são as melhores armas do instrutor. Ele pode dar sua aula mostrando o mínimo possível, para ter tempo de ver seus alunos e ouvir sua respiração, e então poderá dar a solução a qualquer dificuldade que apareça.

Somente com a voz e indicações precisas, se pode pedir ao aluno que realize qualquer movimento. E o aluno, ao ter menos referências visuais do que orais, não terá com o que comparar o que está fazendo. E isso o permite estar mais concentrado sem ter lugar para dúvidas.

A pouca quantidade de elementos visuais permite que a confiança se instale: o instrutor irá corrigir ou não algo no aluno, mas não será ele quem se auto-avaliará depois visto que não tem imagens concretas com quais comparar.

A Importância dos DescansosAluno-2

Se seguirmos corretamente as dicas anteriores, veremos que a aula está se desenvolvendo intensamente mas sem sentir o peso do esforço, dos limites e das metas. O aluno estará ouvindo as indicações, observando e impossibilitando de fugir sua concentração com distrações externas, porque estará prestando atenção a si mesmo.

Isso não quer dizer que entre os exercícios não se pode fazer uma mini pausa.

É necessário voltar a relaxar os músculos, pois nada está a salvo de alguma possível nova tensão. Para esses momentos devemos pedir ao aluno que siga respirando da forma do Pilates e que não abandone o corpo ao relaxamento total.

Deve seguir respirando ativamente, mesmo que não se mova, como se o descanso mesmo fora, seja um exercício para si mesmo. Isso ajuda para que o corpo não esfrie (momento que as tensões se instalam) e que a concentração não se perca.

Além disso, uma respiração correta é a área em que as pessoas mais sentem dificuldade em aprender. Não devemos dispensar nem um minuto disso tendo em vista que assim se aprende mais rápido.

Concluindo…Aluno

Desejo que essas dicas possam ajudar todos os instrutores desse maravilhoso método de exercícios naturais.

São formas de conseguir que o aluno se conheça mais pois somente assim poderá saber quando exigir mais. Somente assim poderá deixar de ver o instrutor como a única forma de referência e começar a ver a si mesmo como sua própria referência, se apropriando do método como forma de vida, e não como atividade alienada.

Saúde e Pilates para todos!

Written by Sebastián Magariños

Sebastián Magariños

Nasci na França, mas me mudei para o Uruguai quando criança. Foi no país que comecei a praticar esportes através do basquete na adolescência. Conheci o Método Pilates apenas com 28 anos quase que por azar, ao procurar uma solução eficaz para um sentimento muito profundo que sentia: estava abandonando a atividade física sem me dar conta. A partir desse momento tudo mudou. Além disso sou ator de teatro e me dei conta de que o método me dava ferramentas muito eficazes para me relacionar com o espaço e com meu próprio corpo. “Sou completamente apaixonado pelo método e adoro ajudar a quem necessita da possibilidade de recuperar energia e mobilidade trabalhando a mente e o corpo, se dando conta de que tudo o que necessitados para nossa saúde, é o nosso desenvolvimento físico que está em nossas mãos. Sou graduado do Instituto Corpo de Motevideo e atualmente trabalho a mais de um ano no Vitta Pilates sempre fazendo cursos permanentes de atualização.”

1 posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *