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Relação entre a Fraqueza Muscular no Quadril e a Dor Lombar

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A dor lombar é uma ocorrência comum dentro dos estabelecimentos de Pilates e é uma disfunção multifatorial, ou seja, são diversos os fatores que podem vir a gerar essa.

A pesquisa sobre tratamento conservador da dor lombar quase sempre se concentrava na coluna lombar, não havia uma literatura significativa sobre as alterações que ocorriam à distância que poderiam ser causadoras dessa sintomatologia.

Hoje, com o avanço dos estudos sobre dor lombar, temos várias comprovações científicas de que são variadas as alterações biomecânicas que as causam.

Temos, então, que buscar atualizações constantes sobre os avanços relacionados à nossa profissão.

Além disso, na prática clínica diária, muitas vezes é extremamente difícil identificar a fonte dos sintomas em pacientes com dor lombar, mesmo com a evolução que temos hoje com relação às avaliações.

Um estudo relacionado a isso foi realizado por Abenhaim e cols., que observaram que uma porcentagem pequena de indivíduos com dor lombar apresentam uma fonte anatômica que seja causadora da dor.

Ainda com relação à avaliação, vários estudos mostram também que o diagnóstico por imagem são, na maioria das vezes, potencialmente incapazes de identificar a fonte da dor, influenciar o prognóstico ou afetar no resultado final.

Estudos Científicos sobre Dor Lombar

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Na dor lombar, ocorre o que chamamos de interdependência regional.

Refere-se ao “conceito de que afecções aparentemente não relacionadas numa região anatómica remota podem contribuir ou estar associadas com a queixa principal do indivíduo (Reiman. 2008)

Percebemos então a importância da avaliação física, já que as evidências mostram que se basearmos a nossa avaliação em exames de imagem podemos não estar sendo eficazes na tentativa de identificarmos o agente causador, nesse caso, da dor lombar.

O instrutor de Pilates deve então se basear em uma abordagem baseada no comprometimento, identificando potenciais contribuintes locais ou remotos para a área de preocupação principal do paciente. (Reiman. 2008).

A pesquisa realizada pelo grupo VOLL com mais de 1000 instrutores de Pilates em todo o Brasil mostra que, de longe, as patologias da região lombar são as mais comuns nos Studios de Pilates.

Devido à relação biomecânica e anatômica entre o quadril e a região lombar (também evidenciado pelos músculos (psoas, quadrado lombar, glúteo máximo, etc…) devemos considerar a região do quadril como um potencial contribuinte para a dor lombar (Reiman. 2008).

Segue abaixo algumas evidências que mostram essa relação:

  • Ellison et al. compararam a rotação do quadril de pacientes com dor lombar com a de indivíduos ​sem dor lombar. Os pacientes com dor lombar demonstraram com maior frequência assimetria de rotação do quadril, com rotação interna (RI) inferior à rotação externa (RE).
  • Chesworth e cols. também compararam a rotação de quadril em indivíduos com dor lombar com um grupo de controle combinado para idade, sexo, altura e peso. Tanto a rotação interna (RI) como a rotação externa (RE) foram significativamente limitados no grupo com dor lombar em comparação com o grupo controle.
  • Vad e cols. demonstraram que os golfistas profissionais sintomáticos, em comparação com os assintomáticos, apresentaram redução significativa da amplitude de movimento do quadril em uma combinação de flexão, abdução e rotação externa (FABER) da extremidade inferior que leva ao balanço no golfe comparado com a perna oposta; nenhuma assimetria de amplitude do quadril foi relatada nos sujeitos assintomáticos.

Os estudos mostram que as restrições da amplitude do quadril sejam elas patológicas ou não, possuem relação com a dor lombar.

Relação entre Fraqueza Muscular do Quadril e a Dor LombarFraqueza-muscular-no-quadril-e-dor-lombar-3

Após essa revisão sobre a relevância científica dessa abordagem, vamos para a questão que vai o título do texto.

Afinal, como a força da musculatura do quadril possui relação com a dor lombar???

Para isso, temos que fazer uma análise biomecânica mais aprofundada sobre o equilíbrio da pelve.

Sabemos que a pelve é dependente de suas musculaturas para manter o equilíbrio. Quando estamos em apoio unipodal, pode ocorrer uma queda da pelve para o lado contra lateral, o famoso sinal de Tredelemburg.

Por muito tempo a responsabilidade da positividade desse teste era a fraqueza do glúteo médio, quando ele não conseguiria manter a pelve nivelada; bastaria então fortalecer o glúteo médio para estabilizar a pelve, certo?

Segundo a balança de Pauwels a resposta é: NÃO!

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Simplificando, a balança de Pauwels afirma que o glúteo médio, para estabilizar a pelve, deveria gerar uma força 3 x maior que o peso corporal para conseguir esse objetivo.

Ou seja, biomecanicamente, o glúteo médio sozinho não consegue estabilizar a pelve.

E essa alteração é uma alteração primária no chamado valgo dinâmico, ou colapso medial do joelho que entre outras alterações é uma causa de dor lombar.

Quem estabiliza a pelve então?

Os principais estabilizadores da pelve são as musculaturas conhecidas como complexo póstero lateral do quadril (termo esse que foi validado pelo grupo do Prof. Fukuda em SP).

Os grupamentos musculares que formam esse chamado complexo póstero lateral do quadril são os abdutores, os extensores e os rotadores externos.

1 – Com a queda da pelve para o lado contra lateral ocorre um momento varo no joelho (Ver imagem abaixo).

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2 – Na tentativa de compensar essa queda da pelve para o lado contra lateral, ocorre uma inclinação do tronco para o lado contra lateral (já que a musculatura fraca do quadril não consegue fazer essa correção).

Essa inclinação é chamada de “escoliose transitória”.

Passa a ocorrer então um momento valgo no joelho. O momento valgo no joelho é consequência do momento varo. (Ver imagem abaixo).

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Essa fraqueza levaria a excessiva queda contralateral da pelve durante atividades com descarga de peso como andar, correr, subir ou descer escadas quando este mecanismo se torna exacerbado e constante.

Uma maior inclinação do tronco é necessária para compensar o equilíbrio, gerando sobrecarga na região lombar e é neste momento que a dor lombar pode aparecer.

Imagina essa compensação ocorrendo repetidas vezes. Obviamente irá ocorrer um stress na região lombar.

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Uma das formas de avaliar o valgo dinâmico é Step Down Test.

(Utilizado para avaliar a força dos membros inferiores, a estabilidade do tornozelo, pé e Core, e ainda, a habilidade de desacelerar e controlar a força excêntrica do corpo).

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Convém lembrarmos que, com relação ao valgo dinâmico, a fraqueza do complexo póstero lateral do quadril não é a única causa conhecida, há outras descritas na literatura, por exemplo:

  • Arco de movimento excessivo de rotação interna do quadril, indicando baixa rigidez passiva (Bittencourt et al., 2012).
  • Pronação excessiva do tornozelo (podendo ser avaliado pelo alinhamento perna/antepé);
  • Restrição de dorsi flexão (Bell-Jenje et al., 2016)

Concluindo…

Como foi dito anteriormente, a dor lombar é multifatorial.

Aqui foi abordado UMA das possíveis causas, não podemos esquecer que cada caso é um caso então a avaliação é fundamental para encontrarmos as causas relacionadas a essa sintomatologia.

Recomendo, a quem tiver interesse em saber mais sobre outras causas de dor lombar, procurarem os textos em que outros colegas abordaram esse tema; creio que irá acrescentar bastante à todos(as).

Embora exames de imagem sejam importantes em algumas situações, não podemos traçar um diagnóstico cinético funcional e consequentemente uma conduta terapêutica somente com esse parâmetro.

A fraqueza de quadril também está relacionado a outras patologias, por exemplo: Síndrome de dor fêmoro patelar, lesões do ligamento cruzado anterior, lombalgias (como abordamos aqui nesse texto), impacto fêmoro acetabular, entre outras.

A atualização dentro da nossa profissão é fundamental, pois a cada dia aparecem mais e mais evidências novas sobre as mais variadas patologias.

Com isso podemos utilizar intervenções com validações científicas baseadas em evidências.

O maior inimigo do conhecimento não é ignorância, mas a ilusão do conhecimento.

Stephen Hawking

Um abraço à todos e até à próxima matéria!

Espero que gostem, deixem suas opiniões nos comentários.

Written by Roberto de Sousa

Fisioterapeuta formado pela FRASCE/RJ
Especialista em biomecânica pela UFRJ
Fisioterapeuta do Club de Regatas Vasco da Gama (02/2013 - 01/2015)
Professor do Instituto Brasileiro de Fisioterapia (IBRAFISIO)
Formação no conceito Mulligan
Formação em Trilhos anatômicos
Formação em Mobilização Neural
Formação em Pilates (Curso Básico, aplicado à Gestantes, patologias de coluna e hérnia de disco)
Formação em estabilização segmentar cervical e lombar
Formação em Kinesiology Taping

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10 Comentários

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    • Obrigado pelo comentário, Cristina.
      Que bom que gostou, agradeço por ter dedicado um pouco do seu tempo à leitura da matéria.
      Sucesso pra você.

    • Obrigado pelo comentário, Daniela.
      Agradeço também pela atenção prestada durante o curso de biomecânica.
      Sucesso pra você.

  1. Ocorre em meninos, e os primeiros sinais de fraqueza muscular surgem assim que comecam a caminhar, ao redor dos tres aos cinco anos de idade. Inicialmente percebe-se quedas frequentes, dificuldades para subir escadas, levantar-se do chao e correr, principalmente quando comparadas a criancas da mesma faixa etaria.

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