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Espasticidade na Paralisia Cerebral: Utilizando o Pilates no controle da patologia

Espasticidade na Paralisia Cerebral: Utilizando o Pilates no controle da patologia
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A espasticidade é descrita como um fator potencialmente incapacitante em decorrência de um dano no Sistema Nervoso Central (SNC). Sobretudo no trajeto córtico-retículo-bulbo-espinal do sistema piramidal.

Uma das principais consequências da espasticidade – além da rigidez articular especifica ao grupamento muscular afetado -, é a possibilidade de contratura muscular.

Isso afeta o desenvolvimento motor, ocasionando padrões de movimento anormais em consequência de aderências e de desordens musculoesqueléticas.

Estas, contribuem com o surgimento de deformidades provenientes de encurtamentos musculares, tendíneos e ligamentares devido ao aumento da atividade reflexa miotática (DAMIANO 2001; AGUIAR, RODRIGUES 2004).

Que tal saber como o Método Pilates auxilia no controle da Espasticidade na Paralisia Cerebral? Continue lendo este texto para entender!

O que é a Paralisia Cerebral?

Em neuropediatria, a Paralisia Cerebral (PC) ou Encefalopatia Crônica não evolutiva da Infância é descrita como uma das condições mais incapacitantes. Afetando indivíduos durante o período de desenvolvimento pré, peri ou pós-natal.

A doença leva a restrições no desempenho de atividades voltadas ao autocuidado e interferindo diretamente nas transferências posturais e locomotoras. A PC é classificada, de acordo com o comprometimento motor, em:

  • Espástica;
  • Atetóide;
  • Atáxica;
  • Mista (quando ocorre a coexistência de mais de um padrão anômalo de movimento).

As crianças que possuem essa patologia apresentam falta de controle motor e um consequente comprometimento da capacidade funcional. Repercutindo na inabilidade social e na realização de tarefas essenciais, além da incapacidade de regulação dos mecanismos necessários para o movimento (COOK, WOOLLACOTT, 2003).

Segundo Shumway-Cook (2003), uma imensa variedade de problemas pode contribuir para a falta de controle postural do paciente com PC e levar ao comprometimento do controle motor.

Isso inclui alterações dos mecanismos antecipatórios (feedforward), e de retroalimentação (feedback), além de disfunções musculoesqueléticas que afetam as reações de equilíbrio da criança.

Estratégias a se considerar pré-tratamento

Com isso, algumas estratégias compensatórias são adotadas – como alterações posturais e de equilíbrio -, em que há compensações no alinhamento do tronco e de membros inferiores. Tudo isso, na tentativa de modificar e controlar as posturas adotadas acima e abaixo das articulações coxo-femorais.

Caso estes ajustes não sejam satisfatórios aos centros de comando central, serão necessários outros meios ou recursos assistenciais para locomoção e manutenção do equilíbrio na posição de pé.

Diante disso, o tratamento de indivíduos portadores da PC deve ser bastante abrangente, levando em consideração as alterações funcionais secundárias ao comprometimento neurológico que afetam a biomecânica do indivíduo.

Portanto, deve-se considerar o alongamento muscular, a estabilidade articular e a força associada ao controle central. Pra a realização das atividades que compreendem a habilidade para realização de movimentos funcionais junto a manutenção de diferentes posturas (CARGNIN, 2003).

Objetivos do tratamento na Paralisia Cerebral

 A proposta de tratamento na PC deve ter como objetivo a correção ou a prevenção das deformidades musculoesqueléticas. Através da inibição da atividade reflexa exacerbada para normalização do tônus muscular e assim facilitar o movimento normal, melhorando a força, a flexibilidade e a amplitude de movimento.

Com o objetivo de recuperação dos padrões de movimento e maximização das capacidades motoras básicas para a mobilidade funcional. Prevenindo, assim, as anormalidades posturais e as deformidades articulares decorrentes do déficit motor.

De acordo com Capucho (2012), o alongamento global é essencial na fase primária do tratamento de pacientes com paralisia. Uma parte importante do tratamento e treinamento físico, por promover maior relaxamento e extensibilidade dos tecidos.

Por isso, há melhora da ADM, o que facilita a marcha por diminuir os níveis de Espasticidade na Paralisia Cerebral. Com esse objetivo, exercícios para aumento de força também são necessários!

Fortalecimento do Tronco e Reajuste Postural

O fortalecimento abdominal na bola associado a dissociação de tronco, bem como o fortalecimento da cervical e membros superiores com a transferência de objetos de um lado para o outro.

Aliado ao fortalecimento da musculatura extensora do quadril e do joelho através do uso de degraus ou superfícies irregulares também é um ponto a ser trabalhado.

Allegretti (2007) argumenta que as respostas posturais automáticas podem modificar os ajustes posturais devido a maturação da experiência motora. Sugerindo que os ajustes posturais podem ser aprendidos e adquiridos por meio do treino de equilíbrio.

Por isso, o autor destaca que os treinamentos que exigem repetição e modificação do ambiente são importantes para a prática e promovem melhora no equilíbrio e desempenho do controle postural de crianças com PC.

Uma vez que o treino de equilíbrio proporciona ao paciente com PC, o aumento do recrutamento muscular para a manutenção da postura em pé, promovendo, assim melhor ajuste postural.

 Benefícios do Pilates na Espasticidade Paralisia Cerebral

O uso do método Pilates vem sendo recentemente documentado na literatura em diferentes afecções neurológicas. Estudos recentes descrevem diferentes protocolos específicos na PC, porém ainda é discutível seu uso com o objetivo de diminuição e controle da Espasticidade na Paralisia Cerebral.

O que nos leva a perguntar se o mesmo poderia ser utilizado com esta finalidade ou se possui efeitos significativos sobre esta manifestação clínica. Considerando que não existem evidências que apontem para seu uso com este objetivo específico.

No entanto, Santos; Serikawa e Rocha (2016), utilizaram o Método Pilates para verificar o efeito dos exercícios em uma criança com Paralisia Cerebral com comprometimento leve durante um período de oito semanas.

Eles descreveram que houve um aumento no pico de torque e peso corporal dos extensores, flexores de tornozelo e joelho de ambos os membros afetados e não afetados dos indivíduos analisados. Além da diminuição de todas as variáveis ​​cinéticas após a intervenção.

Resultado que se manteve com posterior aumento nos valores das variáveis ​​isocinéticas e diminuição dos valores das variáveis ​​cinéticas relatados inicialmente após um mês de acompanhamento.

Concluindo que o uso do Pilates pode ser uma técnica importante para a reabilitação funcional de crianças com PC que apresentam comprometimento leve com o objetivos de melhorar a força muscular e o controle postural durante a permanência na posição de pé.

Desempenho Muscular dos Membros Inferiores

Desta forma, pode-se inferir que apesar do Método Pilates não ter influenciado diretamente na diminuição da espasticidade. Seus efeitos sobre a força e controle postural podem sugerir que o mesmo permitiu melhorias sobre os comandos responsáveis pela modulação dos níveis de Espasticidade na Paralisia Cerebral.

Uma vez que um melhor desempenho muscular dos membros inferiores destacado por Santos; Serikawa e Rocha (2016), pode significar a interferência positiva dos exercícios de Pilates sobre a espasticidade. Com a consequente quebra dos padrões patológicos típicos da PC com relação aos membros inferiores.

Estes são frequentemente observados a flexão plantar excessiva do tornozelo durante a fase de sustentação da marcha que dificulta o apoio e aplainamento da planta do pé em contato com o solo.

Além da flexão excessiva ou hiperextensão do joelho; com flexão, adução e rotação medial do quadril com inclinação anterior da pelve durante a fase de sustentação como descreve Aguiar e Rodrigues (2004).

Exatamente por esse motivo, a Espasticidade na Paralisia Cerebral é destacada com um fator de extrema interferência funcional, sendo a contratura em flexo-adução da articulação coxofemoral tida como a deformidade mais precoce observada na paralisia cerebral espástica.

A presença do reflexo de estiramento aumentado é uma das principais consequências responsáveis por comprometer a habilidade motora dos indivíduos afetados, prejudicando a locomoção e a independência funcional.

Aguiar e Rodrigues (2004), destacam que a hipertonia muscular decorrente da Espasticidade na Paralisia Cerebral durante a movimentação passiva ocasiona a rigidez e a lentidão de movimento do membro afetado devido à exacerbação das atividades reflexas monossinápticas miotáticas.

Importância do Alongamento

De acordo com Machado (2000), isto ocorre devido a presença de desequilíbrios entre os comandos inibitórios ou facilitadores que podem repercutir com o desencadeamento de episódios de hipertonia em determinados grupamentos musculares.

Onde o quadro de Espasticidade na Paralisia Cerebral ocorre como resultado de um aumento na excitabilidade dos motoneurônios alfa e gama, decorrente da lesão de fibras que normalmente exercem ação inibidora sobre eles.

Como algumas fibras retículo-espinhais que ocasionam deformidades por ação de grupos musculares cujos antagonistas foram paralisados devido ao déficit no controle da atividade de co-contração antagonista e agonista.

Uma vez que o maior déficit na ativação concêntrica em comparação com a ativação excêntrica pode influenciar potencialmente na influência das respostas de alongamento espástico na produção de força segundo Damiano et al (2001).

Neste sentido, com o objetivo de melhorar a performance neuromuscular por meio de estratégias capazes de manter o equilíbrio e modulação do tônus, o alongamento também passa a ser uma importante técnica responsável por proporcionar efeitos positivos sobre os níveis de Espasticidade na Paralisia Cerebral.

No estudo de Nunes, Martins e Macedo (2010), foi possível observar os efeitos do alongamento em associação as técnicas de Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva (FNP) e de Controle Postural em paciente com hemiparesia espástica, que resultou em melhora expressiva na ADM.

Minimizando o risco de contraturas e lesões musculotendíneas, com melhora na postura e na consciência corporal dos pacientes.

Os autores também discorrem sobre os benefícios do fortalecimento muscular que deve ser considerado em virtude da presença da Espasticidade na Paralisia Cerebral que torna os músculos hipertônicos enfraquecidos.

Fraqueza em pacientes com Paralisia Cerebral

De acordo com Damiano et al (2001), a fraqueza em pessoas com paralisia cerebral acontece devido a produção inadequada de torque dinâmico durante a atividade concêntrica e excêntrica que compromete a função motora.

Onde crianças com PC além de serem mais fracas que o normal, apresentam diminuição no torque com o aumento da velocidade em consequência da maior restrição dos reflexos de estiramento em atividades mais elevadas de um músculo antagonista espástico.

Este se alonga durante um esforço concêntrico máximo no agonista para limitar a produção de torque. Desta forma, estes achados, ressaltam os efeitos positivos destacados por Santos; Serikawa e Rocha (2016).

Após o uso do Pilates sobre a melhora do pico de torque e peso corporal dos extensores, flexores de tornozelo e joelho avaliados na PC.

Em ambos os estudos, os autores examinaram a produção de torque dos músculos extensores, flexores de tornozelo e joelho usando o sistema Biodex.

Porém no estudo de Damiano (2001), os testes isocinéticos foram concêntricos e excêntricos, onde foi observado que a Fraqueza agonista na PC pode ser resultado da interferência com o drive excitatório central para os neurônios motores alfa como anteriormente relatado por Machado (2000).

Ou ser decorrente de uma disfunção dos sistemas motores descendentes como resultado de uma menor atividade física.

Destacando que a fraqueza excêntrica possa ser uma provável causa a ser observada em pacientes com PC e que a utilização de treinamento excêntrico pode melhorar as habilidades que exigem este mecanismo de torque.

Pilates para Fortalecimento Muscular

Com relação a isso, em comparação com o estudo anterior, Oliveira (2017), investigou os efeitos do Pilates durante 12 semanas sobre a força muscular isocinética dos extensores e flexores do joelho em mulheres idosas.

Os autores também consideraram o pico de torque, além do trabalho total para os membros inferiores direito com melhoras significativas em todos os testes realizados nas comparações pré e pós-intervenção.

Evidenciando que 12 semanas de Pilates repercutiu positivamente sobre o aumento da força muscular isocinética dos extensores e flexores do joelho em mulheres idosas.

Estes resultados apesar de terem sido obtidos por meio da análise de um público alvo com características diferentes da PC contribuem com a afirmativa de que o Pilates pode interferir na produção de força e aumento do torque em diferentes populações.

Auxiliando na recuperação funcional dos principais fatores incapacitantes que exercem influência sobre o aumento da Espasticidade na Paralisia Cerebral como anteriormente referido. 

Concluindo…

Desta forma, o uso do método Pilates pode ser considerado como mais uma ferramenta terapêutica aliada ao incremento de estratégias motoras a serem trabalhadas na PC.

Com objetivos voltados ao ganho de alongamento muscular, aumento da força e manutenção do equilíbrio, auxiliando também direta ou indiretamente.

Com a consequente melhoria dos níveis de Espasticidade na Paralisia Cerebral do tipo espástica com comprometimento leve.

Ressaltando que os benefícios sobre a modulação do tônus, aumento do comprimento muscular e melhora na co-ativação neuromuscular. Devem ser estratégias a ser trabalhadas na PC com objetivo de favorecer e proporcionar maior repercussão sobre a atividade funcional desses indivíduos.

 

 

Bibliografia
  • AGUIAR IF, RODRIGUES AMVN. O uso de órteses no tratamento de crianças com paralisia cerebral na forma hemiplégica espástica. Arquivos Brasileiros de Paralisia Cerebral 2004; 1(1):18-23.
  • ALLEGRETTI, KMG. et al. Os efeitos do treino de equilíbrio em crianças com paralisia cerebral diparética espástica. Rev. Neurocienc 2007;15(2):108–113.
  • CAPUCHO, P. Y; et al. Paralisia cerebral – membros inferiores: reabilitação. Acta Fisiatr. 2012;19(2):114-22
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  • COOK, A.S. WOOLLACOTT M.H. Controle Motor. Teoria e Aplicação Prática. 2 ed. São Paulo: Manole 2003. 577p.
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  • MACHADO A, Neuroanatomia funcional, 2º ed. Editora Atheneu; 2000.
  • NUNES, L. E.; MARTINS, R. A.S.; MACEDO, A.B. A eficácia da associação das técnicas de Alongamento, Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva e Controle Postural em adolescente com hemiparesia – Estudo de caso. Revista Eletrônica “Saúde CESUC” – Centro de Ensino Superior de Catalão, 2010;1 (1).
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  • OLIVEIRA, LC et al. Pilates increases the isokinetic muscular strength of the knee extensors and flexors in elderly women. J Bodyw Mov Ther. 2017 Out; 21(4):815 – 822

Written by Lydiane Bonneterre

Lydiane Bonneterre

Fisioterapeuta Graduada pela Universidade da Amazônia - UNAMA. Instrutora de Pilates pelo Instituto Corpóre com Pós Graduação em andamento na área de Fisioterapia Neurofuncional.

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