Posted in:

O Método Pilates hoje, segundo Lolita San Miguel

Acompanhe um papo íntimo e descontraído com a única discípula em atividade certificada pelo próprio Joseph Pilates

O Método Pilates hoje, segundo Lolita San Miguel
Gostou? Avalie!

A primeira vez que vi Lolita foi na California, em meados de 2007, e desde então aprendi a admirar essa incrível profissional, que tem mais energia que qualquer pessoa que conheço, mais disposição do que jamais terei nessa vida e, acima de tudo, que tem um coração enorme, que abraça a todos aqueles apaixonados pelo Método Pilates. Vou ao seu encontro cerca de 5 a 6 vezes ao ano pelo menos, para treinamentos, assistências e revisões, e a cada encontro coleciono materiais sobre ela, faço perguntas, pequenas entrevistas. Mas, com o intuito de trazer material exclusivo para minha primeira postagem no Blog Pilates, nos sentamos em sua casa em Palm Beach Gardens, numa manhã de sábado, depois de praticamente 16 dias seguidos de curso, para um bate papo informal.

 

Você já deve ter perdido a conta de quantas vezes respondeu isso a alguém, mas queria saber: o que é o Método Pilates, segundo Lolita San Miguel?

Primeiramente temos que lembrar que Método Pilates é uma forma de condicionamento que concilia o corpo, a mente e o espírito, e que foi criado por um alemão chamado Joseph Pilates.

Ele usava uma série de equipamentos que ele mesmo criou para trabalhar o corpo de forma mais completa e integral. São esses mesmos equipamentos, ou pelo menos os mesmos conceitos, que utilizamos até hoje. Provamos, então, a cada dia, o quanto Joseph estava realmente à frente de seu tempo.

Você acha que Joseph faria algo diferente do que fez?

Bom, Joseph nunca parou de crescer, no sentido de que, até seu último ano de vida – ano o qual eu já frequentava seu estúdio – ele ainda me dava exercícios ou mudava pequenos detalhes para me desafiar ainda mais. Se alguém chegava ao estúdio precisando de cuidados especiais, devido a alguma lesão, ele criaria acessórios ou modificaria exercícios para acomodar as necessidades daquela pessoa. Em alguns casos, até dava esse acessório criado para que a pessoa levasse para casa e, assim, pudesse continuar treinando junto a uma série de exercícios orientados por ele. Eu mesma tinha problemas no joelho e utilizava uma espécie de bota de ferro, que tinha um certo peso, e era com essa bota que tinha que realizar a maioria dos meus exercícios de solo. Ele realmente amava adaptar o Método Pilates às circunstâncias exigidas por cada pessoa.

Lolita, de tudo o que você já viu acontecer com o Pilates, na sua opinião, você acha que Joseph estaria feliz em ver o cenário do Método na atualidade?

Eu acho que ele estaria muito feliz por ver que hoje o Método Pilates é conhecido mundialmente. Hoje, quando você fala sobre Pilates, a maioria das pessoas já sabe do que se trata. Temos revistas, portais online, várias escolas ensinando o Método, temos a PMA (Pilates Method Alliance).

metodo-pilates-LOLITA-SAN-MIGUELInfelizmente ele morreu muito triste, achando que não havia conseguido alcançar seu sonho de ver o Método Pilates difundido para todo o mundo. Ele realmente acreditava que iria “reformar” o mundo através disso. Mas hoje, quando compareço a conferências e vejo tantas pessoas unidas buscando aprender mais sobre o assunto, eu vejo que ele conseguiu, sim, alcançar o que tanto queria.

Ao mesmo tempo, eu acho que ainda estamos no início. Nós somos muito jovens, se compararmos o Pilates a algo milenar, como a Yoga. Eu acho que, sim, devemos estar muito felizes por tudo o que alcançamos ao difundir o Método Pilates, mas ainda temos muitos outros objetivos a serem alcançados. Por exemplo, levar o Pilates para dentro das escolas e ensinar Pilates às crianças, a fim de levar um condicionamento de mente e corpo para esse público ainda jovem. Também acho que hospitais deveriam utilizar o Método Pilates como forma de reabilitação. Assim como eles oferecem esteiras ergométricas, bicicletas e outros aparelhos para a reabilitação cardíaca, por exemplo, deveriam também ter equipamentos de Pilates como uma opção para pessoas que estão ali se recuperando de um procedimento cirúrgico.

Eu tenho fé que, ao criar uma comunidade de pessoas que realmente ama e respeita o Método Pilates, nós iremos alcançar muito mais, e somente assim teremos o verdadeiro Pilates sendo ensinado em todos os lugares e para os mais diversos públicos. Atualmente temos o que chamamos “Quick Pilates”, o Pilates instantâneo, você estuda em um final de semana, pega um pedaço de papel e pronto, começa a dar aulas. E é exatamente por isso que devemos formar uma comunidade unida em torno de pessoas que levam o Método Pilates a sério.

Quando você viaja para dar aulas e cursos você vê a diferença entre instrutores que passaram por um processo sério de certificação e instrutores que não tiveram tanta sorte em seu processo de formação?

Sim, a diferença é enorme. E ao mesmo tempo, eu não considero uma pessoa que só ensina Mat Work um instrutor de Pilates, mesmo que a Mat seja a base de todo o Método Pilates. Para ser um professor de Pilates você deve ter uma educação completa, e estar hábil a ensinar em qualquer um dos equipamentos criados por Joseph.

Eu ensino a ordem histórica das técnicas, e deixo claro que era assim que ele ensinava, mas não sigo essa ordem 100% das vezes, pois acho que os pensamentos, pesquisas e conhecimentos evoluíram. A vida não parou em 1967, e graças a Deus estamos em constante evolução. Em 1958 não havia essa noção e conhecimento de usar o Método Pilates para a reabilitação. Sim, haviam os dançarinos que procuraram Joseph para voltar a dançar, mas esses eram a minoria.

Portanto, temos que enxergar a evolução do Método Pilates nas condições de vida da sociedade moderna, mas, ao mesmo tempo, devemos saber muitíssimo bem todo o repertório original, pois só assim você tem o senso crítico e conhecimento para saber o que aceitar e rejeitar em se tratando de evoluções ou mudanças de exercícios. Pense assim, Joseph nos deixou um baú cheio de tesouros dentro, que são seus exercícios, e não se trata apenas de repetir os mesmos exercícios que estão no seu livro (Return To Life Through Contrology), mas sim saber escolher quais daqueles exercícios aplicar, variar se necessário, para que o exercício não vire rotina, e a pessoa simplesmente não comece a ligar o piloto automático.

Lolita, você acha que o Método Pilates mudou a sua vida de alguma forma? O que o Pilates agregou a sua vida?

metodo-pilates-LOLITA-SAN-MIGUELPilates muda a vida de qualquer pessoa, e em todos os aspectos. Se você realmente se dedicar, é um Método que irá te trazer uma mudança completa de vida. Basta levar em consideração todos os princípios inerentes que são tão importantes, como a respiração, o alongamento axial, resistência a gravidade, equilíbrio, coordenação, alinhamento, o controle de centro e muitos outros. Só de levar em conta que você não irá trabalhar pequenas partes do seu corpo, mas sim ele como um todo, já contribui para que você tenha uma mente saudável e mais feliz. Porque, convenhamos, ninguém é feliz quando está doente. E uma vez que você realmente prática o Pilates verdadeiro, você encontra outro componente brilhante, que é acessar o espírito.

Através do relaxamento (técnica que pode ser definida como meditação em movimento) você realmente pode liberar todas as tensões. Sendo realista, a maioria das doenças atuais são causadas direta ou indiretamente pelo estresse e tensão do dia a dia. Portanto, relaxar as tensões é um componente primordial para estarmos vivos e acompanhar todas as mudanças da sociedade. Antigamente nós lavávamos nossa própria roupa, não tínhamos elevador, nem usávamos o carro para ir a qualquer lugar. Éramos muito ativos. Mas hoje em dia as pessoas ficam sentadas quase o dia inteiro, causando péssimos hábitos posturais, o que está arruinando o corpo de grande parte da população mundial.

Joseph chegou nos anos 20 nos EUA e, mesmo nos anos 60/70, quando ele morreu, Nova York ainda era uma cidade de pessoas muito ativas. Até hoje, elas andam para todos os lados, sobem e descem as escadas para pegar o metrô, para subir ou descer até seus apartamentos. Posso te dizer que é muito diferente da vida que tenho agora na Florida. Aqui em Palm Beach, o carro está sempre em frente de casa, e para ir de um vizinho a outro pegamos o carro. Quase não há pessoas andando na rua, as únicas que vejo estão andando para se exercitar.

Você pratica Pilates, Lolita? Com qual frequência?

Sim, eu pratico Pilates diariamente. Eu não faço isso para ganhar medalhas, mas sim porque, se eu não realizar minha rotina diária de Pilates, meu corpo não se sente bem, eu não me sinto bem, e perco até a qualidade do meu sono. Eu comecei a me exercitar através da dança, quando tinha 7 anos, e conheci o Pilates quando tinha 24, em 1958, em Nova York. Carola Trier foi minha primeira professora. Eu nunca parei de me movimentar e me exercitar desde os 7 anos de idade.

Quem te inspirou ou estimulou para se dedicar ao mundo da dança? 

Deus, só pode. Porque meu pai jamais aprovaria que eu me tornasse dançarina. Ele morreu quando eu tinha apenas 11 anos, eu já fazia aulas nessa época. Era parte da sociedade, as meninas faziam aulas de piano e Ballet. Mas meu pai nunca imaginou que a dança seria minha profissão de vida. Minha mãe, por outro lado, sempre foi uma mulher muito forte, dizia que a vida era minha, e que eu devia fazer minhas próprias escolhas. Estamos falando de uma mulher de convicção e opiniões fortes numa época em que as mulheres não eram tão ativas na sociedade. Eu tive muitas decisões difíceis a serem tomadas, como ir para Universidade ou seguir dançando profissionalmente.

Você tem algum recado para mandar para o Brasil, já que você ministrará uma série de workshops por lá em maio do ano que vem?

Eu estou muito feliz em saber que as vagas para meus workshops estão se esgotando tão rapidamente, é surpreendente. Eu acredito que tenho mais discípulos no Brasil do que em qualquer outro lugar do mundo. Na verdade, tudo isso começou com você, Glaucia, que foi minha primeira discípula brasileira. Me deixa curiosa o fato dos brasileiros me entenderem tão bem quando falo em espanhol, mas eu não entender quase nada quando alguém fala em português comigo. A imagem que o Brasil passa para mim é de um povo muito feliz, que tem ritmo próprio, gosta de dançar, de música. Eu amo a música e também amo a comida brasileira. Eu realmente não vejo a hora de estar em terras brasileiras, e espero encontrar muitas pessoas apaixonadas pelo Método Pilates em meus workshops!

Written by Gláucia Adriana

Gláucia Adriana

Fisioterapeuta, instrutora da Segunda Geração do Método Pilates. Basi certified, Stott Full Certified, Mentora e Coordenadora do Curso Lolita’s Legacy Teacher Training no Brasil.

4 posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *