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Atuação do Método Pilates nas Polineuropatias

Atuação do Método Pilates nas Polineuropatias
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Neuropatia é uma perturbação neurológica que acomete os nervos cranianos e/ou espinhais, em função de alguma patologia de causa traumática, infecciosa, toxicológica e/ou outras. Sua classificação é dada de acordo com o local do comprometimento nervoso. As Polineuropatias são patologias que acometem vários nervos periféricos conjuntamente e sem predominância de local especifico.

O Método Pilates surge como uma opção de intervenção para a melhora do quadro de fraqueza muscular e aumento na qualidade de vida da população acometida. Vale salientar que a melhora do quadro de sintomas irá depender, e muito, da(s) causa(s) da neuropatia.

Antes de sermos mais específicos, vamos entender um pouco mais sobre a estrutura anatômica e o funcionamento normal dos nervos afetados por estas patias.

Parte Anatômica e Funcionamento

Figura 1. Estrutura de um nervo – Retirada do site http://www.notapositiva.com Figura 2. Fibras aferentes e eferentes – Retirado do site: https://sites.google.com/site/anatomiafisioterapia/roteiros-praticos

Os nervos são feixes de fibras nervosas envolto por tecido conjuntivo (figura 1) e que tem por função fazer a ligação do sistema nervoso central com os órgãos periféricos de forma morfológica e através da condução de impulsos1.

Ao se ligarem com o encéfalo denominamos nervos cranianos e quando se ligam a medulam, nervos espinhais. As fibras ditas eferentes levam os impulsos do SNC até a periferia e as aferentes fazem o caminho inverso (figura 2)1,2.

O que nos cabe lembrar neste momento são onde os nervos periféricos podem ser acometidos e como, para assim conseguir o melhor tratamento/ajuda dentro das possibilidades.

Existem inúmeras patologias que acometem os nervos, periféricos ou não, e saber onde estruturalmente, esses processos patológicos podem agir é de grande valia para entender a progressão da doença. Temos três localizações distintas, acarretando três tipos diferentes de patias, são elas:

  1. Axonopatias
  2. Mielopatias
  3. Neuropatias

Na primeira, o axônio sofre uma interrupção dos impulsos. Neste, o processo de regeneração é lento, mas existe. Na segunda, as células de Schwann sofrem lesões e, consequentemente, redução do impulso nervoso. Neste caso, uma remielinização pode ocorrer. No terceiro, o corpo celular é afetado, sendo assim, sem possibilidade de se regenerar2.

Classificação das Polineuropatias

As Polineuropatias são uma doença oriunda de outra patologia e, como já citato, é de suma importância saber quem a está causando para traçar um melhor e real prognostico.

STOKES, 2000, classifica em dois grandes grupos: as hereditárias (tabela 1) e as adquiridas (tabela 2).

Tabela 1 – Classificação da Neuropatias Hereditárias – retirada do Livro Neurologia para Fisioterapeuta – STOKE-2000.
Tabela 2 – Classificação das Neuropatias Adquiridas – retirada do Livro Neurologia para Fisioterapeuta – STOKE – 2000.

Falaremos um pouco sobre a neuropatia diabética.

A Diabetes Mellitus é uma pandemia crescente e também a forma mais comum de neuropatia2,3. As alterações neuropáticas podem ser somáticas e/ou do sistema nervoso autonômico. Um padrão de neuropatias que podemos citar neste caso é a sensorial simétrica distal e motora proximal2.

No primeiro, ocasionam fraqueza da musculatura intrínseca dos pés, assim como deficiência sensorial. Neste caso acontece uma alteração no alinhamento e na distribuição da pressão no pé ao apoiar o peso.

No segundo, os músculos iliopsoas, quadríceps e adutor do quadril apresentam fraqueza e assimetria em seu comprometimento. A dor é uma constante e seu quadro piora relativamente à noite2.

Principais Sintomas e Diagnóstico das Polineuropatias

Na maioria das vezes os sinais e sintomas das Polineuropatias aparecem de forma lenta, de acordo com o comprometimento axonal.

Primeiro, o acometimento é distal para depois proximal na região afetada4, e muitas vezes depende da patologia que acarreta a neuropatia, que nem sempre é fácil de identificar. De qualquer forma, existem alguns sintomas comuns, mas não exclusivos, e que podem ser detectados através de exames específicos.

A eletroneuromiografia, testes de velocidade de condução nervosas e a biopsia do nervos são exames utilizados para detectar e diagnosticar as polineuropatias.

Com relação ao diagnóstico da doença de base deve ser realizado um exame minucioso do histórico do paciente assim como exames laboratoriais são indicados pelo mesmo motivo. Todos exames devem ser solicitados e investigados pelo médico.

Voltando aos sintomas, temos:

  • Formigamento
  • Dormência
  • Sensação de Queimação na Região Afetada
  • Perda de Sensibilidade
  • Dor
  • Problemas Musculares: Fraqueza, Contrações, Cãibras, Déficit de Controle e Diminuição do Tamanho do Músculo
  • Problemas Gastrointestinais: Azia, Náuseas e Vômito

Lembrando que não são os únicos sintomas das Polineuropatias, mas os que aparecem com frequência e muitas vezes (não sempre) podem ser sanados com o controle da doença de base, quando esta for conhecida.

Tratamento

Para tratamento pode-se utilizar a abordagem de resolução de problemas, tratando as incapacidades e melhorando as alterações funcionais decorrentes dos sintomas apresentados. Uma abordagem multidisciplinar se faz necessário para que o paciente obtenha os melhores resultados.

Método Pilates como Ferramenta

Como há uma escassez na literatura no que diz respeito às Polineuropatias e a empregabilidade da intervenção através do Método Pilates, relacionarei agora os benefícios da atividade física para esta população com os benefícios cientificamente comprovados que norteiam a expansão e fixação do Método como forma de atividade com consequentes benefícios.

Quero deixar claro que a proposta de exercícios físicos ainda não segue um consenso, porém cabe ao profissional, avaliar, questionar e elaborar a melhor conduta a ser adotada mediante os sintomas apresentados.

A neuropatia pode ser uma patologia altamente incapacitante levando o paciente a ficar restrito ao leito. Os alongamentos são uma ótima opção para se evitar contraturas e possíveis deformidades.

O movimento deve acontecer em toda amplitude para evitar que o músculo permaneça encurtado, resultando em perda de sarcômeros e comprometimento da potencial recuperação. Deve-se estimular a participação ativa do paciente durante a execução do movimento e usar as capacidades que ainda possui2.

E é desta maneira que os exercícios de Pilates, assim como seus princípios podem começar a auxiliar este processo de recuperação. A concentração, principio básico do método, envolve uma importante conexão mente-corpo, que com o tempo e a prática, leva o praticante a focar nos músculos corretos a serem trabalhados durante os exercícios5.

O paciente precisa ter a intenção de executar corretamente o exercicio5, e ai que entra você, instrutor/professor/terapeuta capacitado para ensinar a correta maneira de o fazer.

“Os exercícios posicionam o praticante numa posição que minimiza recrutamentos de músculos desnecessários, os quais podem levar à fadiga precoce, diminuição de estabilidade e reabilitação ineficiente”6.

Pensando agora no fortalecimento muscular, desde sempre, houve cautela na empregabilidade de exercícios resistidos para esta população. Alguns autores2 citam que o fortalecimento muscular pode aumentar os danos as unidades motores lesionadas.

Hoje é sabido, mas não um consenso, que o fortalecimento deve ser realizado, explicando para o individuo que ele deve observar e notar a dor muscular com duração anormal após o exercício, pois uma vez que isso acontece, os exercícios devem ser modificados para permitir a recuperação.

Outros autores sugerem a realização de exercícios em região mais proximais, como quadris e joelhos, e não em regiões mais distais e geralmente mais afetadas, melhorando assim a qualidade da marcha desse indivíduo, através da compensação e padrão mais estável para a mesma.

No Pilates, o princípio da centralização é de suma importância para que os exercícios sejam executados da maneira correta e com isso, colhermos os benefícios que o método proporciona.

A ativação dos músculos estabilizadores de ação tônica5 possibilita o resto do corpo a funcionar com mais qualidade e eficiência. Ensinamos estabilidade central, power house, ao nosso cliente, para ter melhores movimentos em extremidades.

O padrão de respiração adotado na prática do método também pode trazer benefícios a esta população.

O Pilates trabalha com uma respiração tridimensional ou costolateral, que além de permitir a expansão lateral da caixa torácica, equilibrando o tronco e mantendo as costelas estáveis sobre a coluna vertebral7, também promove atenção e consciência, vista como a interação da atividade física e o interior-exterior do corpo5.

Exercícios de Pilates para Polineuropatias

Descreverei a seguir alguns exercícios, utilizando o solo e a bola, que podemos utilizar com esses clientes, salvo, logicamente, alguma restrição mais especifica existente.

Lembrando que são alguns exercícios. Existem inúmeros outros e cabe a cada profissional selecionar o que deve ser melhor para a pessoa em questão no momento proposto.

1) Abdução da Perna

Objetivos

  • Fortalecer Abdutores da Perna – Glúteo Médio, Máximo e Mínimo
  • Fortalecer Sartório, Tensor da Fáscia Lata, Piriforme e Quadrado Lombar
  • Estabilizar Região Lombo-Pélvica e Cintura Escapular
  • Melhorar Equilíbrio, Coordenação Motora e Consciência Corporal em Decúbito Lateral

Instruções

  1. Em decúbito lateral, pelve e coluna neutras.
  2. Manter alongamento axial. Braço debaixo esticado, com palma da mão para baixo e cabeça repousando sobre ele. Braço de cima flexionado com a mão apoiada no MAT.
  3. Pernas aduzidas e realizar abdução do membro inferior de cima.
  4. Retornar à posição inicial.

2) One Leg Up and Down

Objetivo

  • Fortalecer Músculos Quadríceps Femoral, Iliopsoas, Pectíneo e Sartório
  • Estabilizar a Região Lombo-Pélvica
  • Melhorar a Coordenação Motora pelo Movimento dos Pés

Instruções

  1. Em decúbito dorsal, pelve e coluna neutras.
  2. Braços alinhados na lateral do tronco.
  3. Uma perna com flexão de quadril e joelho e pé apoiado no MAT, a outra inicia com quadril em posição neutra, joelho estendido e tornozelo em flexão plantar.
  4. Realizar a flexão de quadril da perna estendida.
  5. Retorna à posição inicial fazendo uma dorsiflexão do pé.

3) Gato

Objetivos

  • Mobilizar a Coluna em Posição 4 Apoios
  • Melhorar a Consciência Corporal
  • Controle Muscular
  • Equilíbrio

Instruções

  1. Em 6 apoios.
  2. Mãos apoiadas no solo alinhadas com ombros; joelhos apoiados no solo e abduzidos na distância dos quadris; pés apoiados no solo.
  3. Coluna e pelve neutras (inspirar).
  4. Realizar a mobilização da coluna em flexão, uma vértebra por vez, iniciando do cóccix até a cabeça (expirar).
  5. Retornar à posição inicial (inspirar).

4) Agachamento na Bola

Objetivos

  • Fortalecer Quadríceps Femoral e Glúteo Máximo
  • Estabilidade Região Lombo-Pélvica
  • Estimular Equilíbrio em Ortostase
  • Consciência Corporal, Controle e Coordenação do Movimento

Instruções

  1. Em pé, apoiar a bola na parede e as costas na bola. Levar os dois pés levemente à frete.
  2. Manter membros inferiores paralelos na distância do quadril e braço ao longo do corpo.
  3. Agachar empurrando a bola contra a parede.
  4. Retornar à posição inicial.

5) Coordenção na Bola

Objetivos

  • Estabilizar Complexo Lombo-Pélvico
  • Fortalecer Musculatura Abdominal
  • Dissociar Cinturas Escapular e Pélvica
  • Melhora Consciência Corporal e Capacidade de Concentração

Instruções

  1. Em decúbito dorsal, membros inferiores em posição de cadeirinha e braços flexionado, cotovelos estendidos e a mãos posicionam-se segurando a bola que também está apoiada nos joelho.
  2. Realizar a extensão do quadril e joelhos, sem que a perna encoste no chão e, simultaneamente estende o membro superior contralateral
  3. Retorne à posição e faça com outro lado.

Concluindo…

As polineuropatias são patologias que apresenta seu tratamento ainda não tão difundido.

Não somente por falta de literatura existente, mas por ser difícil o diagnóstico da doença de base e por, possivelmente, n fatores estarem associados a sua causa.

O Método Pilates entra como possível beneficiador, melhorando aspectos como ganho de força muscular, ganho de alongamento muscular com consequente melhora da amplitude de movimento e prevenção de contraturas e deformidades.

Melhora da consciência corporal e consequente controle postural dessa população, assim como os benefícios de atenção e consciência proporcionados pelo tipo de respiração utilizado.

 

 

Referências Bibliográficas
  1. MACHADO, Angelo. Neuroanatomia Funcional. 2a Editora Atheneu. 2006.
  2. STOKES, Maria. Neurologia para Fisioterapeutas
  3. Cristina Rolim Neumann – “Polineuropatia do “Diabetes Mellitus”: Caracterização clinica e padronização de testes autonômicos e somáticos” – Tese de Doutorado – Universidade Federal do Rio Grande do Sul – 1999.
  4. Kraychete, Durval Campos; Sakata, Rioko Kimiko – Neuropatias Periféricas Dolorosas – Bras. Anestesiol.  vol.61 no.5 Campinas Sept./Oct. 2011
  5. MASSEY, Paul. Pilates-Uma abordagem anatômica. Ed Manole -2012.
  6. SEGAL, NA. HEIN, J. BASFORD, JR. The effects of Pilates training on flexibility and body composition: an observational study. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation. 2004
  7. Ellsworth, Abby. Pilates: Anatomia Ilustrada: Guia Completo para praticante de todos os níveis. Barueri, SP: Manole, 2015.

 

Written by Karla Seleme

Karla Seleme

Karla Vergaças Seleme é fisioterapeuta, graduada pela PUC-PR. Formação completa em pilates pela Espaço Vida Pilates e MAT e IR pela Pilates Studiofit ( STOTT Pilates). Especialista em Fisioterapia Neurofuncional, pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo. Possui formação pelo Conceito BoBath Adulto; Balance; iniciação em Kabat, treinamento suspenso, treinamento funcional. Professora de curdo de formação em pilates pela Espaço Vida Pilates

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