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Como identificar a Dor Cervical e tratá-la com o Pilates?

Como identificar a Dor Cervical e tratá-la com o Pilates?
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Hoje a nossa conversa será a respeito de cervicalgia e eu começo fazendo uma pergunta: Você já teve um paciente/aluno com queixa de dor na região cervical?

Provavelmente você instrutor do método Pilates que está lendo esse texto deve ter respondido sim à pergunta acima e deve ter tido essa experiência algumas ou até muitas vezes no seu Studio.

Nos últimos tempos, a dor nessa região tem se tornado frequente, provavelmente devido aos hábitos da vida moderna que promovem alterações no sistema postural.

Estima-se que 50% da população adulta vivenciará dor na região cervical em algum momento da vida e grande parte desses indivíduos apresentarão dor recorrente.

Portanto, isso significa que se você ainda não passou pela experiência de atender um paciente/aluno com dor na cervical, provavelmente passará! Mas não se preocupe, nesse texto vamos relembrar um pouco sobre a região cervical e conversar sobre os benefícios do método Pilates para o tratamento dessa algia tão comum.

Relembrando a Anatomia da Coluna Cervical

A coluna cervical é capaz de realizar mais movimento do que qualquer outra parte da coluna e isso é possível graças a uma estrutura complexa composta por 37 articulações. Ela pode ser dividida em coluna cervical superior (que abrange C1 e C2) e coluna cervical inferior (que abrange o platô inferior de C2 até o platô superior de T1).

As sete vértebras cervicais possuem algumas peculiaridades. Elas são bem menores quando comparadas as outras vértebras móveis da coluna e possuem disco intervertebrais finos.

As vértebras C1, C2 e C7 são chamadas atípicas, pois possuem muitas diferenças em relação às outras, já as vértebras C3, C4, C5 e C6, chamadas vértebras típicas, possuem estrutura similar as demais vértebras da coluna vertebral, contendo corpo, processos transversos e processos espinhosos.

Nos processos transversos dessas vértebras há um forame por onde são alojados os vasos vertebrais e as projeções nervosas.

As vértebras atípicas C1 e C2 possuem formatos diferentes e a articulação delas proporcionam a rotação da cabeça sobre o restante da coluna cervical. A vértebra C1 ou atlas, não possui corpo e nem processo espinhoso, ela se articula com os côndilos occipitais e com a vértebra C2 ou áxis formando um pivô que possibilita a rotação.

Essa articulação é formada graças a uma projeção vertical localizada na parte anterior da vértebra áxis chamada processo odontóide que se encaixa na fóvea articular presente na superfície posterior da vértebra atlas.

Além de estruturas ósseas peculiares, a coluna cervical possui numerosos ligamentos. Eles protegem a coluna e as estruturas do canal medular de lesões, uma vez que conferem maior estabilidade as articulações.

Além dos ligamentos também temos o complexo muscular que é composto por numerosos músculos que sustentam e orientam o crânio. Esses músculos trabalham em uma relação de antagonismo e sinergia, promovendo movimentos de inclinação lateral, flexão anterior, extensão e rotação.

Biomecânica da Coluna Cervical

A biomecânica da coluna cervical é extremamente complexa, por isso iremos discuti-la resumidamente.

A coluna cervical superior é constituída pelas articulações atlantoccipital e atlantoaxial. A associação dessas articulações é capaz de prolongar os movimentos de flexão e extensão que ocorrem na coluna cervical inferior e também compensar e anular os componentes não desejados da região cervical inferior.

Quando pensamos na coluna cervical inferior é bom termos em mente que durante os movimentos de flexão o disco intervertebral é comprimido na porção anterior, fazendo com o que o núcleo pulposo migre na direção posterior.

O inverso ocorre durante o movimento de extensão, o disco é comprimido posteriormente e o núcleo pulposo é projetado para a porção anterior. Esses movimentos são limitados pelo contato de estruturas ósseas e pelos diversos ligamentos que estabilizam essa região.

Já os movimentos de inclinação ocorrem associados a uma rotação, ou seja, esses dois movimentos sempre ocorrerão juntos em um eixo de movimentos misto, os movimentos de inclinação sempre serão acompanhados de movimentos de rotação.

Eles são determinados pelo deslizamento das facetas articulares das vértebras, em um movimento de rotação.

Lembrem-se que esses movimentos são possíveis graças às ações musculares. Os músculos que atuam nessa região trabalham juntos, ou seja, mesmo que determinado músculo não seja o “ator” principal de determinado movimento, ele pode atuar como sinergista para que o movimento ocorra perfeitamente.

Portanto, uma disfunção muscular pode comprometer toda a região.

Equilíbrio da Cabeça e Postural

A cabeça fica em equilíbrio instável durante todo o tempo.

Podemos comparar a relação da cabeça e dos componentes que formam a região cervical a um sistema de alavanca de primeiro tipo, no qual o peso do crânio é a resistência que deve ser suportada pela força dos músculos da nuca.

Essa alavanca deve ser capaz de manter o crânio em equilíbrio.

A região cervical apresenta uma pequena curvatura quando vista de lado e sofre influências das curvaturas mais inferiores da coluna, ou seja, qualquer alteração postural nos segmentos torácico, lombar ou sacral pode repercutir na região cervical.

Todas as curvaturas fisiológicas devem ser flexíveis e são dependentes dos complexos ligamentares e musculares, além do tônus muscular para manter a posição ereta e realizar movimentos.

Portanto, os músculos da região cervical e dos demais seguimentos da coluna trabalham continuamente, mantendo um tônus permanente, para que a cabeça assuma uma posição centralizada em um plano horizontal.

Isso nos faz inferir que qualquer desordem nessa região ou ainda no restante da coluna podem colaborar para alterações posturais, uma vez que todos os componentes dessa região têm que trabalhar em perfeita sintonia a todo momento.

Dor Cervical

Identificar o problema causal de uma cervicalgia não é tão simples como parece.

A dor cervical geralmente está relacionada a inúmeros mecanismos decorrente de movimentos bruscos, esforço ou trauma e ainda a longa permanência em posições forçadas. Esses fatores podem predispor a desequilíbrios nas estruturas da coluna atrapalhando as relações de antagonismo e sinergismo.

Apesar da dor ser um dos sintomas mais limitantes é comum encontrarmos outros sinais e sintomas durante a avaliação dos pacientes com cervicalgia, tais como:

  • Diminuição de Amplitude de Movimento Articular
  • Rigidez
  • Alteração Postural
  • Tensionamento Local

Esses sintomas podem ser agravados por movimentos cervicais bruscos e posturas sustentadas.

Considero sempre que as “posturas sustentadas” merecem nossa atenção. É muito comum a associação da dor cervical com as posturas assumidas nas atividades laborais, como horas em frente ao computador, sedentarismo ou longas jornadas na posição sentada.

Lembrem-se: Nosso corpo precisa de movimento, não fomos feitos para ficarmos imóveis!

Longas jornadas de trabalho com poucos períodos de descanso podem predispor a dores em várias regiões e a cervical é uma delas, por isso esteja sempre atento às atividades do seu paciente, pois o afastamento pode ser necessário bem como um programa de reeducação ou prevenção de lesões.

Resumidamente o mecanismo da dor começa com a liberação de mediadores pró inflamatórios e vasoconstritores, que estimulam nociceptores.

A dor cervical mecânica também pode ser originária de uma tensão muscular que surge em decorrência do acúmulo de ácido lático em virtude dos diversos fatores já mencionados acima, esse acúmulo pode levar a ativação de pontos sensíveis e desencadear a formação de nódulos de tensão que provocam dor mesmo sem o estímulo de palpação.

A dor, principalmente quando se torna crônica, pode predispor a disfunção muscular, promovendo alterações na estrutura física e no comportamento do músculo.

Portanto, alterações no trofismo podem estar presentes, bem como atividade muscular elevada.

Infelizmente, em alguns casos essas disfunções não afetam somente a região cervical, e o paciente também pode apresentar disfunções em outras regiões que podem estar relacionados a região cervical. Temos sempre que avaliar o nosso paciente como um todo e não apenas a local da queixa!

Como explicar os Benefícios do Pilates para quem tem Dor Cervical?

Muitas pessoas associam o Pilates somente ao tratamento da dor lombar e acham que o método não é direcionado a cervicalgia. Esse pensamento equivocado faz com que muitos pacientes não vejam o método como um recurso para tratamento da dor cervical.

O Pilates pode sim promover benefícios e ser um grande aliado para prevenção e controle da dor e demais disfunções.

No entanto, pacientes que sentem dor podem associar o exercício e a movimentação em geral como uma coisa ruim, uma vez que movimentar e mobilizar a região afetada pode ser doloroso princialmente.

Além disso, pacientes com dores crônicas podem apresentar inúmeras disfunções prejudicando a consciência corporal, o que dificulta a realização do exercício.

Nós como instrutores temos que mostrar ao paciente que o Pilates é um excelente instrumento para melhora da dor, organização da postura, reequilíbrio entre a região da coluna cervical e o restante da coluna, etc.

Então, como deve ser a conduta com esse tipo de paciente?

Bom, como instrutora tento sempre mostrar os benefícios do movimento e de uma vida mais ativa, principalmente naqueles pacientes/alunos que assumem posturas sustentadas por horas e horas durante as atividades laborais.

Mas antes de tudo, é importante a realização de uma boa anamnese e avaliação.

Esse momento é importantíssimo, pois é a partir desses achados iniciais que teremos ferramentas para traçar objetivos e montar uma conduta adequada.

Além disso, essa também é a hora de conquistarmos o paciente, principalmente aquele paciente resistente a novas terapias por medo da dor ou ainda aquele que já passou por inúmeros tratamentos.

Costumo sempre iniciar pelos princípios, pois além de serem essenciais para a execução correta do método eles permitem ao aluno um maior entendimento dos exercícios. Aos poucos, vou propondo exercícios simples que trabalham a mobilidade e consciência corporal que costuma estar alterada nesses pacientes.

Em geral, é comum observarmos que pacientes que relatam dor apresentam ansiedade, portanto, é necessária cautela durante a conduta, principalmente naqueles pacientes mais agitados.

Nesses casos a reeducação do movimento e a melhora da consciência corporal é extremamente importante, uma vez que o aumento do ritmo na execução dos exercícios ou a agitação pode influenciar na qualidade dos movimentos. Em alguns casos, um trabalho em conjunto com a psicologia pode apresentar ótimos resultados.

Concluindo…

Não é incomum recebermos pacientes com dor cervical, aliás esse parece ser um dos problemas mais prevalentes nos dias atuais.

Apesar da dor ser a queixa principal, ela geralmente está acompanhada de sinais e sintomas em outras partes do corpo, podendo predispor desequilíbrios posturais, dor em outras regiões, disfunções musculares, alterações na função, etc.

Como profissionais devemos instruir nossos pacientes/alunos a respeito da importância e da prevenção de patologias nessa região bem como dos benefícios do método Pilates como recurso para o condicionamento físico e tratamento da dor.

 

Referências Bibliográficas
  • DE SOBRAL, Myria Karina Monteiro et al. A efetividade da terapia de liberação posicional (TLP) em pacientes com cervicalgia. Fisioterapia em Movimento, v. 23, n. 4, 2017.
  • DELFINO, Paula Domingues et al. Cervicalgia: reabilitação. Acta fisiátrica, v. 19, n. 2, p. 73-81, 2016.
  • Voight M, L.; Hoogenboom B, J.; Prentice W, E. Técnicas de exercícios terapêuticos: Estratégias de intervenção musculoesquelética. 1st São Paulo: Manole; 2014.
  • Dutton M. Fisioterapia ortopédica: Exame, avaliação e intervenção. 2nd São Paulo: Artmed; 2010.
  • Moore K, L.; Agur M, R, A.; Dalley A, F. Fundamentos de anatomia clínica. 4th Rio de Janeiro:Guanabara Koogan;2013.
  • Kapandji A,I. O que é biomecânica. 1st São Paulo: Manole; 2013.

Written by Isabella da Silva Almeida

Isabella da Silva Almeida

Fisioterapeuta graduada pela Universidade Católica de Brasília. Curso de Pilates completo – Solo, Bola e Aparelhos.
Curso de Exercício Funcional para Idosos promovido pela Liga de Fisioterapia Neurológica da Universidade Católica de Brasília.
Integrante do projeto de pesquisa em geriatria, realizado na Clínica Escola da Universidade Católica de Brasília, Análise morfofuncional e percepção do envelhecimento em idosos participantes do treinamento funcional em realidade virtual.

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2 Comentários

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  1. Gostaria de dicas de exercícios para esses pacientes, nunca é demais diversificar… Parabéns pelo texto…

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